
Quem consegue definir o verdadeiro significado da amizade? Rita Lee sabiamente tentou decifrar essa “relação”, dizendo que amizade é amor sem sexo. Mas o que, necessariamente, une pessoas com personalidades, conceitos, estilos e idéias diferentes? O que as torna próximas e ligadas de uma forma, muitas vezes, incompreensível? É justamente o amor, esse sentimentozinho estranho, que nos faz nutrir admiração e respeito por pessoas que são completamente diferentes de nós. Só que o amor, segundo alguns, “inventado” por nós e próprio do ser humano, vem carregado de outros sentimentos: ciúmes, mágoa, possessividade, carência....
Assim, como na relação homem-mulher, também o amor entre amigos pode sofrer rupturas, guardar ressentimentos, trazer a sensação de abandono e desprezo. O amor, independente da forma que venha, é um sentimento que nos faz depender de alguém, da receptividade e aceitação do outro. E assim como em namoros ou casamentos, a amizade também requer uma boa dose de paciência e, principalmente, de cultivo. A amizade precisa ser cultivada. E muito! Talvez até com mais cuidado do que os relacionamentos amorosos.
Amigas são companheiras, pessoas que permanecem juntas, se ajudando mutuamente em busca de crescimento, aprendizado, compreensão. Através das amigas podemos descobrir um pouco mais sobre nós mesmas, ver mais claramente os nossos defeitos e tentar corrigi-los, mas principalmente, acreditar que temos alguém ali, sempre que precisarmos. Apesar de renegadas a segundo plano, são as amigas que agüentam o tranco dos zilhões de problemas que temos.
É para elas que contamos nossos medos, sonhos, segredos, seja no banheiro de alguma balada, na mesa da cozinha tomando um café ou em horas intermináveis penduradas no telefone. É pra elas que perguntamos sobre o novo corte de cabelo, a cor adequada, pedimos receitas de creme pra pele, pras mãos, dicas de dietas e receita de gororoba pra passar no cabelo.
É pra elas que perguntamos se estamos magras, gordas (e só elas nos dizem a verdade, enquanto o cretino do namorado mente dizendo “você tá óóóóóótima, morrrr!”), feias, que chamamos pra comprar calcinha, pra ir no ginecologista, que pedimos dicas de motel, pra irmos fazer AQUELA farra. É pra elas que ligamos sempre, pra contar os detalhes da farra, detalhes do fulano que beijamos na balada, do cara que nos cantou na rua, no ônibus, na lotação.
É pra elas que reclamamos dos nossos pais, maridos, filhos, parentes, porque sabemos que elas entenderão e dirão que também têm uma família complicada. É pra elas que pedimos conselho (mesmo que a gente não ouça ou não acate) e opinião sobre tudo que nos aflige. É pra elas que contamos sobre aquela a unha encravada, aquela dor no pé insuportável (por causa de um sapato novo), dor de barriga, no coração ou em qualquer outro lugar. É pra elas que contamos quando estamos loucas pra dar, qual nossa posição preferida, se gostamos de sexo anal, oral, se fazemos strip ou sobre uma lingerie nova.
São elas que fazemos de psicólogas, terapeutas, psiquiatras e até mãe de santo, já que algumas são capazes de fazer qualquer despacho pra te ajudar. São elas que nos dizem quando estamos chatas, erradas, inseguras ou simplesmente que fomos mordidas pelo bichinho do ciúme, da incerteza, da burrice.
São elas que nos ajudam a levantar depois de uma queda estrondosa, como um pé na bunda fenomenal ou a descoberta de que o amado se encantou com uma vaquinha qualquer.
É pra elas que corremos quando estamos sem grana, quando precisamos usar o cartão de crédito, usar o cheque ou apenas pedir um troco emprestado. É pra elas que pedimos socorro em 99% das merdas que os homens aprontam. É no ombro delas que choramos por causa deles, por causa da falta de grana, por causa daquela invejosa no trabalho, do emprego chato e do chefe asqueroso.
É com elas que dividimos muitas lágrimas, mas muitos risos também. Só elas são capazes de nos fazer rir até doer a barriga, porque são as únicas que conseguem rir das coisas estúpidas que fazemos, sem nos acusar ou nos chamar de retardadas.
É com elas que dividimos a conta do bar, da balada, da pizza, do táxi, do trem, do metrô, que nos dá carona ou empresta o bilhete único, se estamos no auge da pobreza. São elas que nos ensinam técnicas de maquiagem, qual absorvente é mais legal, como funciona a pílula do dia seguinte, indicam chá milagroso para fazer descer, nos dão os endereços das melhores sex-shops.
É para elas que contamos as fantasias que o amado insiste em querer realizar com a gente ou sobre aqueles dias em que parecemos possuídas e pedimos para ser chamadas de cachorra ou coisa parecida. Também são elas que nos alertam se o escolhido tem um comportamento suspeito, como sintomas de viadagem, ego inflado ou cafajestice aguda.
Com tudo isso, fica impossível dizer que amigas não são importantes. Importantes só não, fundamentais eu diria. Família você ama incondicionalmente, sem escolha ou chance de questionar se é a melhor ou a adequada. Mas amigas....essas você pode escolher. Melhor que isso, você é ESCOLHIDA para fazer parte da vida delas como uma peça-chave. Ser amiga representa criar um vínculo com pessoas com as quais nos espelhamos, seja porque se parecem conosco e falam a nossa língua, seja porque são diferentes de nós e podem nos ensinar outras formas de se ver a vida. Independente de qualquer coisa, ninguém vive sem elas. Nem eu sem as minhas.