segunda-feira, novembro 26, 2007

Boss novo. Ou melhor, Bossa nova


Estou de chefe novo. Ou melhor, nova. Vânia. Dois anos em Londres, um marido, sem filhos, experiência em grandes jornais, mas em revista não muita. Riso fácil, voz suave, jeito de quem está realmente interessada em fazer a coisa decolar. Foi o que apurei até agora. Apesar de saber que leva algum tempo até formarmos opinião sobre alguém, minha primeira impressão foi boa. Me pareceu alguém fácil de conviver, que ouve, pergunta, presta atenção nas respostas. Nada de Hatsumomo na meia-idade. Falando nisso, não fiquei feliz com a saída dela, apesar de tudo. Nem triste. Acho que fiquei aliviada apenas. Aprendi a não guardar rancor, muito menos a dedicar espaço na minha vida e na minha cabeça às pessoas que não me acrescentam em nada. De certo modo, agora estou me sentindo mais solta, com a sensação de que posso trabalhar melhor.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Essa é pra macho!!!


Adoro a VIP. É machista, idiota e fútil, mas tão bem escrita e com tamanho bom-humor que eu não resisto. Leio sempre que posso! Não troco uma VIP por 10 Novas ou Cláudias. Essas são totalmente escrotas e sem sentido. Como uma revista que se diz para o público feminino acima de 30 anos gasta quase todo o seu editorial fazendo matérias sem pé nem cabeça? “Como enlouquecer seu homem na cama”. “Descubra como fisgar um marido”. “Saiba como ser sexy”. E a clássica “Aprenda a fazer sexo oral”. Que mulher, aos 30 anos, ainda não sabe fazer um boquete??? Pior, aprender isso numa revista? É foda. Só falta eles entregarem uma banana junto, pra mulherada treinar em casa.
A VIP é revista de homem para homem e por isso mesmo consegue agradar. Tem aquele machismo idiota intríseco aos homens, mas é tão bem escrita que acaba ficando atraente. Faz uma verdadeira apologia ao sexo sem-vergonha, à pegação desenfreada, incentiva os homens a serem canalhas. Ainda assim, os textos são interessantes, os artigos inteligentes e as matérias boas, apesar de sempre tratadas sob a (limitada) ótica masculina. As legendas das fotos são ótimas! Impossível não rir. Há testes pra saber se o leitor é mala, guia rápido para conseguir sexo anal e assim por diante. A revista não faz a menor questão de ser refinada ou glamourosa como a maioria das revistas femininas tenta ser. Ela é simples e direta, falando de assuntos que interessam aos caras: sexo, futebol, sexo, cerveja, sexo, balada, sexo, viagens, sexo, música, e mais sexo... Cultua bundas e peitos sem pudor, principalmente bundas. Eles devem até ter um altar na redação. Ao contrário de alguns místicos, que têm o Buda sentado, os caras optaram por enfiar um “n” no Buda (com o perdão do trocadilho) e criaram o culto à BUnDA. O que eles devem ter lá não é uma imagem sentada do gordo Buda, mas alguma coisa mais definida, provavelmente de costas. Ou de quatro.
É uma revista machista, mas divertida. Se fosse um homem, seria aquele cara gostoso e gatíssimo, mas totalmente cafajeste. Aquele cafajeste de quem toda mulher foge, mas que no final das contas, sempre leva a gente no bico.

Crise


Depois de queimar os neurônios tentando decidir, tomei coragem e falei pro Ju que queria terminar. Um caos, claro. Gritou, xingou, esperneou, e fez a pergunta básica “por que?”. Eram tantos porquês que tive dificuldade em enumerar. Acabou o sentimento? Claro que não, sou apaixonada por ele. No entanto, tenho a sensação incômoda de que ele não vai me oferecer aquilo de que eu preciso: estabilidade, solidez, segurança. Diz que pretende casar, mas sinto que ele tem mil planos que ocupam o topo da lista de prioridades. Aos 26 anos isso é normal. Eu também não planejava muito nessa idade, achava que teria todo o tempo do mundo. Só que agora, aos 34 anos, sinto meu relógio biológico tiquetatiar cada vez mais rápido. Estou às vias de comprar meu primeiro renew. “Cuidado, você esta ganhando peso. Pense bem, saiba como conduzir sua carreira. Tome cuidado, senão daqui a pouco não vai mais poder ser mãe de novo. ” Pra ajudar, tem sempre algum desavisado que pergunta “Você ainda não casou?”, como se eu fosse um caso digno de estudo. Complexo de Bridget Jones, eu sei, mas é natural em qualquer mulher, principalmente em uma com mais de 30, mesmo as mais seguras. O fato é que ele acha que podemos esperar e eu não. Quando duas pessoas têm planos tão diferentes, como fazer dar certo? Ao mesmo tempo, não queria que alguém ficasse comigo por pressão, como vejo algumas amigas fazendo. O cara tem que querer. Esse papo de que TEMOS que casar porque estamos juntos há um tempão é ridículo. Quero casar com alguém que esteja a fim, que queira curtir uma vida a dois, que queira somar. Eu e ele estamos apenas dividindo. Sonhos, planos, desejos. E o que é pior, contas! É foda, mas to numa fase onde curto ser um pouco Amélia. Não abro mão da minha profissão, amo o que faço, mas também curto essa “Amelice”. Gosto de ficar em casa, cozinhar, ver um filminho, me aninhar com alguém no edredom. Conversamos muito e ele acabou me convencendo de que nos gostamos demais para desistir assim. O lema é “que seja eterno enquanto dure”, então, vou aproveitar enquanto houver sentimento.

Eterna



Estava olhando as últimas fotos que a Marylin Monroe fez, no hotel hotel Bel Air, em Los Angeles, pouco antes de morrer... Linda. Algumas fotos mostram uma Marilyn um tanto cheinha para os padrões atuais (detalhe da dobrinha na foto), mas já é sabido que hoje a Srta. Monroe seria considerada gordinha . Talvez até nem fosse um sex symbol. De qualquer forma, ela continua sendo uma deusa, minha Pin Up preferida. E estimula nós, pobres mortais, preocupadas com nossas gordurinhas, a relaxarmos um pouco.

Pin-Ups & Tatoos


Fiz minha primeira tatuagem!! Pois é, criei coragem e numa homenagem à beleza e sensualidade de todas a pin-ups, inclusive as modernas, desenhei duas cerejas no ombro. Valeu a pena todo o nervoso, medo e dor que passei. Estou me sentindo tão sexy! É difícil escolher um desenho pra por no corpo, principalmente sabendo que o troço vai ficar lá pra sempre. Como tenho bom senso, não queria fazer uma coisa no calor do momento. Sim, porque aos 20 anos é legal fazer uma tattoo, um lindo pássaro de asas abertas, por exemplo. Só que com o tempo, e a conseqüente flacidez da pele, o desenho não continua o mesmo. Assim, aos 60 anos é bem provável que as asas do pobre pássaro estejam totalmente caídas. Lembrei que uma vez fomos a um bar e lá tinha uma figura assim. Tinha por volta de 60 anos e várias tattoos. Estava com um grupo de amigos e parecia totalmente á vontade com a “galera”. Ainda assim, aquilo me pareceu totalmente estranho para uma senhora idosa. Era como se ela estivesse tentando recuperar o tempo perdido. Meu irmão cochichou no meu ouvido “é você amanhã....”. Analisando tudo isso, cogitei um milhão de desenhos, pensando aquilo ficaria dali a alguns anos. Dependendo do que eu fizesse seria vista não como uma velhinha assanhada, mas uma velhinha sem noção. Meus pais me deserdariam e meus netos iriam perguntar “Vovó, isso aqui era o quê?” Pensei bem antes de escolher, mas a idéia foi mesmo do Ju. Ele sabe o quanto curto pin-ups e achou que ficaria lindo em mim, além de não ser nada grosseiro. Acabei concluindo que como primeira tatoo, essa era a ideal. Uh-la-lá!!

terça-feira, agosto 28, 2007

O assassinato do portuga

Outro dia conheci um cara super gente boa. Bonito, simpático, divertido. Resolvemos trocar e-mails, afinal, a tecnologia existe para facilitar a comunicação. Ao receber o primeiro, porém, levei um susto. Era algo mais ou menos assim: “Po a gente precisa ser ver mais to com muita saudade preciso te contar o que aprotarão pra mim foi muito divertido te encontrar semana passada eu sempre gosto do seu papo aliás gosto de tudo em você que é bonita e simpática e inteligente”. Precisei ler o tal e-email umas três vezes, para poder começar a pensar em decifrar aquele emaranhado de palavras desconexas. “O homem sem ponto”, pensei. Horrível! A primeira coisa que me veio à cabeça foi questionar em que momento da vida escolar as aulas de português dele foram substituídas por alguma outra atividade menos “chata” ou “cansativa”. Óbvio que depois disso o fulano perdeu totalmente a graça e eu fugi dele como o diabo foge da cruz, como qualquer mulher com neurônios ativos faria.
Meses depois, fui pautada para escrever uma matéria sobre Second Life (Aliás, outra novela). Precisava saber tudo sobre aquele papo de criar uma eu digital, ter uma segunda vida e bla bla bla....Bom, a primeira coisa que fiz ao nascer digitalmente foi cair numa espécie de maternidade virtual, onde os avatares recém-nascidos recebem as primeiras instruções. Há um instrutor, designado especialmente para orientar essas criaturas perdidas. Ao chegar, perguntei se ali era uma espécie de limbo e a reposta foi “não, aqui é uma ilha de adaptação”. Percebi que o tal instrutor não sabia o que era limbo e resolvi me inteirar mais sobre aquilo com outras pessoas.
Na semana seguinte, continuei a pesquisa para a minha matéria e entrei em diversos blogs especializados no assunto. Um deles, que tinha um layout bem legal e era de um cara conceituado no assunto, me chamou a atenção. A leitura começou agradável até que me deparei com um “agente precisa”....Hã? Agente?? “Só se for secreto”, pensei. Achei que poderia ser um engano, mas estava lá uma, duas, três vezes! Continuei a leitura, mais por curiosidade em achar erros do que aprender sobre tecnologia. Esbarrei com um “derrepente” pouco depois e quase caí da cadeira. O site era bem bacana, bonito, informativo, tinha muita coisa interessante para ler, para aprender, mas ficou claro que a pessoa que o alimentava era péssima para escrever. Outra vez, me questionei sobre a dificuldade das pessoas com gramática e afins. Como alguém consegue escrever um texto tão rico em informações, mas tão pobre em gramática?
Dias depois, outro absurdo. Faço parte de um grupo de jornalismo que recebe informações sobre cursos e palestras, além de oportunidades de trabalho. Recebi um e-mail onde se lia que era “impressindível” que o candidato tivesse essa e aquela qualificação. Minutos depois, novo e-mail, onde a pessoa se desculpava pelo erro (alegando pressa), dessa vez com a palavra correta: imprecindível. Correta na cabecinha dela, claro. Esse grupo, aliás, tem sido um dos que mais tem me deixado boquiaberta. É um verdadeiro festival de emeio, mensionar, fize-se....São jornalistas formados e estudantes! Como pode? Isso é muito preocupante! O que aconteceu com a língua portuguesa? Por que tamanha falta de qualidade nesses novos profissionais? Não só com esses profissionais, mas com a maioria das pessoas?
Essa dúvida começou a corroer meu cérebro. Lembrei que em uma das minhas entrevistas participei de um seminário sobre a jovem cultura tecnológica que está sendo criada. Uma das especialistas dizia que a geração de hoje é diferente, eles não têm o dom da escrita, mas isso não é ruim, já que outras habilidades são desenvolvidas. As crianças e jovens de hoje (e o adultos de amanhã) escrevem e falam pouco, mas são muito mais competitivas e gostam de desafios, dizia ela. Até uma nova linguagem, própria de comunicadores instantâneos, como o MSN, já existe (lembrei do “naum, do vc, pq...”). Enquanto ouvia uma série de explicações sobre essa nova geração, fiquei pensando em como serão esses futuros adultos. Sim, porque eles estão “criando uma nova forma de interação com o mundo da tecnologia, e há pouco espaço para o papel, por exemplo”. Em outras palavras, isso significa que daqui a pouco vai ter gente que nem vai saber o que é um livro! Não saberão quem foi Machado de Assis, Clarice Lispector, Eça de Queirós, Érico Veríssimo, Rubem Braga, Monteiro Lobato, João Cabral de Melo Neto, Fernando Morais!
Ao que tudo indica, elas falarão pouco, mas terão uma linguagem própria, aquela citada há pouco. Serão habilidosas em muitas coisas, principalmente em tecnologia, e o número de blogs e sites será ainda maior. No entanto, nem todos terão realmente qualidade, porque, em algum momento, essas pessoas tão antenadas com o novo perderam o interesse pela língua portuguesa, deixaram de se importar com o fato de escrever bem, de saber se expressar, de conhecer a língua-mãe. È provável que a forma de expressão mais comum seja através dos conteúdos (ruins) produzidos.
Não sou contra a chamada web 2.0, pelo contrário! Acho maravilhoso o fato de ter liberdade para se expressar, mas sinto pesar em perceber que poucos o fazem de forma coesa. Não seria maravilhoso se todo o conteúdo da internet tivesse alta qualidade? Se recebêssemos e-mails bem escritos? Se pudéssemos conversar com as pessoas em uma linguagem clara e sem esse maldito gerundismo? (Aliás, hoje no almoço uma moça perguntou se podia “estar sentando ao meu lado”). O que será de nós, com tanta gente assassinando o bom e velho português??

Minha Segunda Vida


Enfim, minha matéria sobre o Second Life ficou pronta. Fiquei aliviada e com a sensação de dever cumprido. Apesar da sensação boa, porém, alguma coisa ainda me incomodava. Descobri que eu estava com uma necessidade enorme de falar sobre o assunto sob outro ângulo: o de uma simples usuária, ligeiramente devagar em tecnologia e totalmente leiga em vida digital.
O primeiro passo para escrever a matéria era criar o tal avatar. E foi exatamente aí que começou o meu calvário. Não tinha a menor idéia de como “gerar” uma criatura digital, nascida de mim, mas que não era exatamente uma filha e sim algo mais parecido com um clone meu. Enfim, aos trancos e barrancos, nasceu Lunnay Dryke, meu eu naquele mundo cheio de surpresas.
O sobrenome chique foi escolhido, digamos, por livre e espontânea pressão, já que é preciso escolher uma das famílias existentes no metaverso. Claro que me perguntei se a família que escolhi era centenária, se tinha posses virtuais, talvez até uma boa reputação. Será que os Dryke eram pessoas legais? Fosse como fosse, o nome era pomposo. Por algum motivo, Dryke me lembrava Drácula (eu sei, viagem total!) ou Draco e a pronúncia era bem agradável.
Escolhido o nome, nasci. Não pelada, como me disseram. Os avatares mais recentes já nascem devidamente vestidos, nada de gente nua e com cara de boba perambulando pelas ruas virtuais. Eu só não tinha rosto, aliás, demorei cerca de 1 mês para me dar conta de que eu precisava me “editar” e escolher exatamente quais feições eu teria, mas isso não era exatamente um problema.
Passado esse primeiro de sufoco, parti para a minha viagem rumo à Matrix. Aliás, pensando nisso eu bem que poderia ter escolhido Trinity....Bom, tarde demais. Lunnay Dryke já tinha dado o ar da graça naquele mundo estranho. Os primeiros instantes são, literalmente, estranhos. Caímos em uma espécie de “ilha de treinamento” e lá todos os novatos são orientados sobre como proceder na segunda vida. Confesso que não dei muita bola para o instrutor, que falava comigo e mais troçentas pessoas ao mesmo tempo, tão perdidas quanto eu. Aquela confusão de perguntas e gente perdida me enervava, então resolvi me virar sozinha.
É preciso dizer que eu sequer tinha alguma noção de como participar da brincadeira, era realmente como um recém-nascido, que não sabe nada sobre o mundo. Com isso, que as situações constrangedoras foram inevitáveis. A primeira delas foi quando meus pezinhos virtuais reclamaram do cansaço e decidi descansar. Eu também teria um ângulo melhor de quem chegasse e poderia observar com calma o comportamento do povo. Depois do que pareceu uma eternidade vi que não consegui executar um ato simples como sentar. Fiquei horas parada em frente a um banco, sem ter a menor idéia do que fazer e me sentindo uma perfeita idiota. Quando eu já ia desistir, um rapaz simpático me avisou que eu teria que dar alguns cliques para realizar certas ações como sentar e levantar. “Que idiota eu devo ter parecido, meu Deus....”. Esse foi apenas a primeira de muitas e levou dias para eu conseguir com que a pobre Lunnay tivesse certa mobilidade, conseguisse andar, sentar e ir de um lugar a outro sem grandes problemas.
Dias depois, resolvi que era hora de arriscar um vôozinho básico, afinal, todo mundo alardeava que essa era umas das grandes delícias do Second Life. Olhei atentamente para a tecla “voar” que aparecia na tela e fui em frente. Por alguns minutos, eu estava no céu e podia ver todos os meus amiguinhos avatares lá embaixo. Que emocionante, uma deliciosa sensação de liberdade! Quando resolvi descer, porém, descobri que não tinha feito a pergunta mais importante: como fazer para descer?? O resultado foi que me estatelei em cima de uma palmeira e fiquei lá durante um bom tempo, sacudindo braços e pernas de forma ridícula. Nesse momento, preferi sair do SL, tamanha a vergonha.
Quando entrei novamente, dessa vez, mais confiante, resolvi que era hora de fazer alguns contatos. Descobri o repórter de uma revista conhecida e imbuída de toda a minha simpatia, tentei iniciar uma conversa. O fulano, ou melhor, o avatar, porém, não deve ter achado a Lunnay muito atraente ou interessante, porque saiu de perto de mim rapidamente. Saí atrás, mas é claro que ele acabou voando e o máximo que consegui foi bater com a cara na porta de uma loja. Esse, aliás, era outro problema constante. Eu tinha dificuldade com portas, então, constantemente me batia contra uma delas. Passei a ter receio de entrar e muitas vezes perdia um tempão em frente às lojas calculando o espaço da bendita porta e, é claro, tentando não passar vergonha de novo.
O objetivo inicial de tentar conhecer pessoas acabou se revelando uma tarefa não muito fácil. Quando Lunnay nasceu, achei que ela faria parte de um novo mundo, animado, cheia de gente interessante, enfim, que “bombava”. Descobri que a coisa não é bem assim. Boa parte das ruas está sempre vazia e salvo alguns gatos pingados, não há muito com quem conversar. Fiquei me perguntando onde estaria a multidão que a imprensa tanta falava. Desde que foi criado, o números de avatares aumenta expressivamente, é verdade, mas o fato é que eu não tava vendo esse povo todo lá. Talvez estivesse entrando no horário errado, mas ainda assim não imaginei que os habitantes fossem tão escassos.
Bom, teria que arrumar alguma coisa para fazer. Como qualquer alma feminina, achei que fazer compras seria um bom programa, principalmente porque tinha ouvido que havia muita coisa bacana para se consumir naquele maravilhoso mundo. Me dei conta, porém, de que não tinha um mísero linden dóllar no bolso e que comprar qualquer coisa seria meio difícil. Aí bateu a deprê. Pobre na vida real tudo bem, mas no mundo virtual também? Ninguém merece!! Não ter amigos virtuais é triste, mas pior ainda é descobrir que no computador sou mais pobre do que na vida real! Nada de crediário, cartão de crédito, parcela, carnê. O negócio é tudo no cash. Humpf!
Eu tinha que arrumar um jeito de conseguir alguma renda e percebi que o lance seria arrumar um emprego. Mas como? Não tinha qualificação profissional virtual nenhuma e nem sabia como fazer contato, já que as lojas estavam sempre vazias. Quem sabe dançarina de boate? Talvez rendesse uma boa grana. Bom, mas se eu mal conseguia entrar em algum lugar sem brigar com a porta, o que dirá dançar ou rebolar!!! A vantagem era que poderia descobrir um pouco mais sobre o dark side daquele mundo digital. Todo mundo falava em abrir negócio, em ir a festas, em assistir palestras legais, mas eu sabia também que muita gente era atraída pelas coisas, digamos, politicamente incorretas que se pode fazer lá. Há casas de prostituição e o sexo rola sim. Esse, aliás, é um dos mercados que mais cresce por lá. Apesar de não ser o foco da minha matéria, eu TINHA que saber como aquelas pessoas realizavam um ato tão físico. A curiosidade feminina falou mais alto, admito.
Como nascemos seres assexuados no SL, para que se possa dar uma namoradinha qualquer é preciso dispor do órgão sexual, vendido facilmente em lojas especializadas. No entanto, como eu era pobre, fiquei na vontade. Não que eu esteja desesperada na vida real, mas é que como a repórter que sou, fiquei curiosa. A aventura virtual só não foi possível (e eu espero que o meu namorado jamais saiba disso) porque mais uma vez faltou verba. E a minha editora não tinha destinado nenhum realzinho para eu investir na (literalmente) pobre e (certamente) carente Lunnay.
Percebi que eu era um ser meio bizarro ali: pobre, sem rosto e sem sexo. Me senti meio “incompleta”. Mas aproveitei esse momento de reflexão da Lunnay para me perguntar: será que todo mundo que estava ali tinha realmente investido na vida real? Quer dizer, a coisa mais importante que descobri ao viver digitalmente foi que não dá para se divertir e aproveitar realmente a second life sem botar grana de verdade.É simplesmente impossível! Sem isso, o ser humano, ops, o avatar fica vagando a esmo, sem ter muito o que fazer. Esse, aliás, é outro problema. Tudo, absolutamente TUDO o que se queira fazer é preciso dispor de tempo. Para aprender a mexer no programa, para procurar os lugares, as pessoas, para perguntar, para fuçar. Quem quer entrar de cabeça no mundo virtual, tem que dispor de MUITO tempo livre na vida real. E isso, eu realmente não tinha. Além da Lunnay e suas aventuras, eu tinha que organizar a vida da Nani, trabalhar, namorar, fazer pesquisa, ser até dona de casa. E ainda comer, dormir...
O second Life é sim uma idéia interessante, mas digamos que ele ainda precisa melhorar, amadurecer. Talvez daqui a alguns anos, a coisa tenha evoluído e eu tenha mais avatares para interagir comigo e para quem eu possa fazer perguntas simples, como “como eu faço para ir para Paris?”. Sim, porque digitei Paris no search e cai num lugar estranho, que mais me lembrava a ilha do Dr. Moreau.... Desesperada, voltei imediatamente à familiar Berrini e suas lojas vazias. Com o susto, vi que passear virtualmente pelo mundo ainda é complicado para mim. E decidi que vou esperar o Neo (ou algum outro “escolhido”), para me guiar com segurança.

quinta-feira, julho 19, 2007

Os 13 mandamentos do Jornalista


1º Não terás vida pessoal, familiar ou sentimental.
2º Não verás teu filho crescer.
3º Não terás feriado, fins de semana ou qualquer outro tipo de folga.
4º Terá gastrite, se tiver sorte. Se for como os demais, terá úlcera.
5º A pressa será teu único amigo e as suas refeições principais serão os lanches, as pizzas e o China in Box.
6º Teus cabelos ficarão brancos antes do tempo, isso se te sobrarem cabelos.
7º Tua sanidade mental será posta em cheque antes que completes 5 anos de trabalho.
8º Dormir será considerado período de folga, logo, não dormirás.
9º Trabalho será teu assunto preferido, talvez o único.10º A máquina de café será a tua melhor colega de trabalho, porém, a cafeína não te fará mais efeito.
11º Terás sonhos, com entrevistados, e não raro, resolverás problemas de trabalho neste período de sono.
12º Exibirás olheiras como troféus de guerra.
13º E, o pior... Inexplicavelmente gostará de tudo isso...

quinta-feira, maio 31, 2007

O nascimento da borboleta....


Aos 10 anos, ela queria ser freira. Aos 12, bailarina. Aos 14, os professores do colegial insistiam que deveria tentar o jornalismo. Ela nem ligava. A essa altura queria mesmo era ser atriz. Tinha certeza absoluta de que tinha nascido para a coisa. Era apaixonada por cinema, assistia empolgada aos filmes que passavam na TV, inclusive filmes antigos, prestando atenção em cada detalhe. Era o máximo! A única coisa que prendia sua atenção tanto quanto um bom filme era um bom livro.

Passava horas na biblioteca, olhando todas as prateleiras em busca de algum exemplar que tivesse uma história bem legal. Fazia isso desde os 7 anos. Seu primeiro grande livro foi “A moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo, aos 8 anos, seguindo de“Pollyana” e “Pollyanna Moça”, de Eleanor H. Porter, aos 9. Um clássico, mas ela nem fazia idéia disso. Aos 10 anos já tinha lido a coleção completa de romances da irmã: Bianca, Sabrina e Julia (levou uma bronca da “fêssora” que dizia que ela não tinha idade para ler aquilo). A coleção de livros de bolso de histórias do FBI do irmão também caiu em seus olhinhos vorazes.
Ia na biblioteca sozinha, porque as amiguinhas achavam muito chato aquele negócio de livro e preferiam ficar brincando de dona-de-casa, com suas panelinhas e fogõeszinhos de brinquedo. Ela não gostava. Queria era ler histórias de todo o tipo, saber das coisas!

Na escola, era apaixonada por português e história. Sua paixão pela Grécia nasceu aí. Os professores, naturalmente, insistiam “você gosta de ler e escrever, por que não faz jornalismo?”. Porque tinha descoberto que adorava dançar. E queria estudar dança, ser bailarina clássica ou mesmo de jazz, para dançar divinamente como Jennifer Beals no filme Flashdance.

Aos 14 anos, no intervalo entre um passo e outro de dança (no meio da sala de casa, a contragosto da mãe), ficou encantada com um livro emprestado pelo cunhado, Olga, de Fernando Moraes. Era a história bacana de uma mulher forte, que lutava num país cheio de injustiças. Um Brasil muito complicado, que ela não entendia muito bem, liderado por um cara sacana chamado Getúlio Vargas. Ela não comeu, não bebeu e não parou de ler até chegar ao final do livro, para saber o que aconteceria com a pobre Olga. Levou bronca da mãe, claro e, ao final do livro, estava triste. E com fome.

Continuava apaixonada pelos filmes e seriados da TV. E um dia percebeu que alguns heróis, como Mulher-Maravilha, Super-Homem e Homem-Aranha usavam o disfarce de jornalistas. Que coincidência!! Será que um dia seria uma heroína também??

Pouco depois se deu conta de que ler era seu passatempo preferido. Gostava cada dia mais, nunca se cansava. E à medida que crescia, continuava lendo.... Na adolescência, a coleção Vaga-lume passou por sua mão, começando com Spharion. A marca de uma lágrima, leu aos 15 anos... seguido de uma dezena de outros: A Revolução dos Bichos, Feliz Ano Velho...Apaixonou-se por Sidney Sheldon e Agatha Christie. E por Machado de Assis, Fernando Moraes, Caco Barcelos...Truman Capote virou ídolo. Política virou um assunto interessantíssimo, com Notícias do Planalto. Leu clássicos, romances, livros bobos e inteligentes. Leu até livros esquisitos e toscos, como um livro esotérico que um cara deu a ela no meio da rua (Horrorosooo!!). Perdeu a noção de quantos livros leu ao longo da vida.

Já adulta, o bom desempenho ao escrever cartas, relatórios e textos nos empregos acabou convencendo-a de que tinha certa aptidão. A paixão pelo cinema tinha se transformado em hobby e, aos poucos, foi se inebriando com as possibilidades que o jornalismo oferecia, como as inúmeras histórias que poderia contar, de como seria bom informar as pessoas, fazê-las entender como o mundo funcionava. Estava cada vez mais convicta de aquela era uma função quase social, afinal, falar sobre as mazelas do mundo era realmente um dom.

Aos 28 anos, resolveu encarar os 4 anos de faculdade, cheia de idealismo. No primeiro ano, descobriu que ser jornalista era muito mais complicado do que imaginava. Os professores não paravam de frisar que quem quisesse realmente trabalhar na área, tinha que se preparar para o pior: o jornalismo pagava muito mal, não havia vagas nas empresas e não se conseguia ingressar na carreira sem um QI. Ouviu listas intermináveis de prós e contras da profissão (mais contras do que prós, diga-se de passagem), além de detalhes sórdidos de como os grande veículos manipulam a informação em benefício próprio.

Pensou em desistir inúmeras vezes, em mudar de profissão, em jogar tudo para o alto, tamanha a raiva e frustração. E só não o fez até hoje porque todos os dias acontece um milagre: ela senta em frente ao computador e escreve. Matérias para a revista que trabalha atualmente, e-mails quilométricos para as amigas, textos e crônicas, para o seu blog. E sente um prazer enorme ao fazer isso, que não sente fazendo nenhuma outra coisa. É ali, no meio de tantos pensamentos, que surgem aos borbotões, de frases cuidadosamente elaboradas, da preocupação com a gramática, que ela se sente realizada.

Ainda se sente meio ridícula por manter esse romantismo. Sabe que um dia vai mudar, que vai ficar mais lúcida quanto à realidade da profissão. Bom, até lá, ela prefere curtir esse encantamento e lembrar daquela garotinha que se perdia em meio a tantos livros e que adorava conhecer novas histórias...Porque foi nisso que ela se transformou: numa contadora de histórias.

quarta-feira, maio 16, 2007

Vida de foca


Jornalista recém-formado é carinhosamente apelidado de foca. Também, pudera! As semelhanças não são poucas. Eu, por exemplo, percebi muitas....E as redações estão cheias deles, seres graciosos, alegres, sorridentes e loucos para agradar o grupo, principalmente os animais maiores e mais perigosos, que fazem questão de infernizar a vida das pobres coitadas. E eles são vários!!!!!
As focas do mar, por exemplo, são mamíferos adaptados à vida marinha. As focas das redações também são mamíferos, mas a facilidade de adaptação aos mares gelados do jornalismo impede que a adaptação dessas criaturas seja tranqüila.
Normalmente elas correm o tempo todo pra cima e pra baixo, tentando fazer zilhões de coisas ao mesmo tempo, procurando obedecer as regras impostas pelas morsas, aqueles seres parecidos com as focas (vale ressaltar que só parecem, porque no fundo são muito mais evoluídos e, justamente por isso, viraram aqueles chefes, gordos e bigodudos!).
As foquinhas, portanto, trabalham com todo o esmero, afinal, se prepararam anos para chegar a esse nível, para fazer parte desse seleto grupo de animais admiráveis. E nunca reclamam por fazer tudo o que fazem e receber por isso apenas algumas míseras sardinhas em troca, que mal dá para ajudar a criar a camada de gordura que ajuda a esquentar sua pele.
Quando resolvem sair da redação e mergulhar no jornalismo, descobrem o terror de águas gélidas. Até aí, tudo bem, vale a pena o esforço, já que elas gostam de mergulhar. Matéria aqui, matéria ali, tentativa, erro, tudo seria encarado mais facilmente se as focas não precisassem fugir de criaturas impiedosas que também circulam nessas águas.....Enormes, violentos e sedentos tubarões brancos, que não aceitam a idéia de compartilhar seu espaço com um ser tão inferior como uma foca. E fazem de tudo para que ela fuja dali o mais rápido possível, antes de ser devorada.
Quando são escaladas para mergulhar, geralmente é em algum assunto chato. Nenhum grande profissional/tubarão branco se dispõe a escrever sobre qualquer coisa, só assuntos de suma importância. Geralmente é a pobre foca que vai fazer aquela matéria mais fraquinha ou mesmo perambular pela favela, entrevistar pai-de-santo ou cobrir campeonato de iô-iô. E ainda vai feliz!!!
O pior é quando as focas, que afinal de contas são iniciantes na arte do jornalismo, precisam recorrer a esses tubarões brancos para uma eventual ajuda nesse ou naquele mergulho. “Como faço?”, “Qual seria a melhor pessoa para entrevistar?”, “Essa palavra tem crase?”....
Não fossem as dúvidas a dificuldade natural, é preciso um imenso jogo de cintura para ignorar os olhares de desaprovação das criaturas brancas que, ou resolvem não ajudar e deixam a foca à própria sorte, ou até ajudam, mas deixam claro a insignificância, a ignorância, a falta de discernimento e clareza de raciocínio, além do favor enorrrrrrrrrrrrrrrrrme que estão prestando à jovem foquinha.
Dependendo da região...ops...da redação, a foca pode encontrar outras criaturas marinhas, acostumadas com todo aquele jogo de gato e rato e até se apiedam das focas, ajudando a conquistar umas sardinhas extras em trabalhos esporádicos...Essas criaturas, porém, são cada vez mais raras. Atualmente, boa parte das focas está à mercê de alguma morsa pedante, gorda, bigoduda e chata ou fugindo do rei dos mares. Ou as duas coisas juntas! O que não falta nas redações, aliás, são seres perigosos, verdadeiros reis. E rainhas. E todos os outros animais precisam formar uma corte, estar à sua disposição sempre. A foca? De preferência que fique escondida num canto, sem aparecer muito.
As focas marinhas não possuem orelhas. As das redações têm, mas geralmente precisam fingir que não têm, evitando ouvir o que não pode e ser expulsa do grupo Ou mesmo serem acusadas de intrometidas.
As focas marinhas são excelentes nadadoras, assim como as das redações, e embora ambas consigam realizar belos mergulhos, não têm muita habilidade em terra firme, virando presa fácil para caçadores, ursos polares e morsas (pois é, elas de novo....).
Em 2002, durante a época de caça oficial de focas marinhas no Canadá, foram assassinadas mais de 300.000 espécimes. Aqui no Brasil, um número semelhante de focas-jornalistas tenta ingressar no mercado frio e cruel das redações, mas também deve morrer no meio do caminho.O único momento feliz da foca é durante o acasalamento. Tanto as focas marinhas quanto jornalistas se reproduzem em colônias. No caso das jornalistas, essas colônias geralmente são animados bares onde elas podem se misturar a outros de sua espécie, ou outras igualmente injustiçadas (como estagiotárias e secretinas), mas que tem uma vontade enorme de viver. Ou melhor, sobreviver. E nada como uma boa breja e um petisco para ajudar!!

sexta-feira, março 09, 2007

Por que optar pelas mulheres com mais de 30?


"A medida que envelheço e convivo com outras, valorizo mais ainda as mulheres que estão acima dos 30.

Elas não se importam com o que você pensa, mas se dispõem de coração se você tiver a intenção de conversar.

Se ela não quer assistir ao jogo de futebol na TV, não fica à sua volta resmungando, vai fazer alguma coisa que queira fazer... E geralmente é alguma coisa bem mais interessante.

Ela se conhece o suficiente para saber quem é, o que quer e quem quer.

Elas não ficam com quem não confiam. Mulheres se tornam psicanalistas quando envelhecem. Você nunca precisa
confessar seus pecados... elas sempre sabem...

Ficam lindas quando usam batom vermelho. O mesmo não acontece com mulheres mais jovens... Mulheres mais velhas são diretas e honestas. Elas te dirão na cara se você for um idiota, caso esteja agindo como um!

Você nunca precisa se preocupar onde se encaixa na vida dela.
Basta agir como homem e o resto deixe que ela faça...

Sim, nós admiramos as mulheres com mais de 30 anos!

Infelizmente isto não é recíproco, pois para cada mulher com mais de 30
anos, estonteante, bonita, bem apanhada e sexy, existe um careca,
pançudo em bermudões amarelos bancando o bobo para uma garota de 19 anos...
Senhoras, eu peço desculpas!

Para todos os homens que dizem: "Porque comprar a vaca, se você pode beber
o leite de graça?", aqui está a novidade para vocês: Hoje em dia
80% das mulheres são contra o casamento e sabem por quê?
Porque as mulheres perceberam que não vale a pena comprar um porco inteiro
só para ter uma lingüiça!

Nada mais justo!"

Arnaldo Jabor

quinta-feira, março 01, 2007

World Pink: o mundo das amigas


Quem consegue definir o verdadeiro significado da amizade? Rita Lee sabiamente tentou decifrar essa “relação”, dizendo que amizade é amor sem sexo. Mas o que, necessariamente, une pessoas com personalidades, conceitos, estilos e idéias diferentes? O que as torna próximas e ligadas de uma forma, muitas vezes, incompreensível? É justamente o amor, esse sentimentozinho estranho, que nos faz nutrir admiração e respeito por pessoas que são completamente diferentes de nós. Só que o amor, segundo alguns, “inventado” por nós e próprio do ser humano, vem carregado de outros sentimentos: ciúmes, mágoa, possessividade, carência....
Assim, como na relação homem-mulher, também o amor entre amigos pode sofrer rupturas, guardar ressentimentos, trazer a sensação de abandono e desprezo. O amor, independente da forma que venha, é um sentimento que nos faz depender de alguém, da receptividade e aceitação do outro. E assim como em namoros ou casamentos, a amizade também requer uma boa dose de paciência e, principalmente, de cultivo. A amizade precisa ser cultivada. E muito! Talvez até com mais cuidado do que os relacionamentos amorosos.
Amigas são companheiras, pessoas que permanecem juntas, se ajudando mutuamente em busca de crescimento, aprendizado, compreensão. Através das amigas podemos descobrir um pouco mais sobre nós mesmas, ver mais claramente os nossos defeitos e tentar corrigi-los, mas principalmente, acreditar que temos alguém ali, sempre que precisarmos. Apesar de renegadas a segundo plano, são as amigas que agüentam o tranco dos zilhões de problemas que temos.
É para elas que contamos nossos medos, sonhos, segredos, seja no banheiro de alguma balada, na mesa da cozinha tomando um café ou em horas intermináveis penduradas no telefone. É pra elas que perguntamos sobre o novo corte de cabelo, a cor adequada, pedimos receitas de creme pra pele, pras mãos, dicas de dietas e receita de gororoba pra passar no cabelo.
É pra elas que perguntamos se estamos magras, gordas (e só elas nos dizem a verdade, enquanto o cretino do namorado mente dizendo “você tá óóóóóótima, morrrr!”), feias, que chamamos pra comprar calcinha, pra ir no ginecologista, que pedimos dicas de motel, pra irmos fazer AQUELA farra. É pra elas que ligamos sempre, pra contar os detalhes da farra, detalhes do fulano que beijamos na balada, do cara que nos cantou na rua, no ônibus, na lotação.
É pra elas que reclamamos dos nossos pais, maridos, filhos, parentes, porque sabemos que elas entenderão e dirão que também têm uma família complicada. É pra elas que pedimos conselho (mesmo que a gente não ouça ou não acate) e opinião sobre tudo que nos aflige. É pra elas que contamos sobre aquela a unha encravada, aquela dor no pé insuportável (por causa de um sapato novo), dor de barriga, no coração ou em qualquer outro lugar. É pra elas que contamos quando estamos loucas pra dar, qual nossa posição preferida, se gostamos de sexo anal, oral, se fazemos strip ou sobre uma lingerie nova.
São elas que fazemos de psicólogas, terapeutas, psiquiatras e até mãe de santo, já que algumas são capazes de fazer qualquer despacho pra te ajudar. São elas que nos dizem quando estamos chatas, erradas, inseguras ou simplesmente que fomos mordidas pelo bichinho do ciúme, da incerteza, da burrice.
São elas que nos ajudam a levantar depois de uma queda estrondosa, como um pé na bunda fenomenal ou a descoberta de que o amado se encantou com uma vaquinha qualquer.
É pra elas que corremos quando estamos sem grana, quando precisamos usar o cartão de crédito, usar o cheque ou apenas pedir um troco emprestado. É pra elas que pedimos socorro em 99% das merdas que os homens aprontam. É no ombro delas que choramos por causa deles, por causa da falta de grana, por causa daquela invejosa no trabalho, do emprego chato e do chefe asqueroso.
É com elas que dividimos muitas lágrimas, mas muitos risos também. Só elas são capazes de nos fazer rir até doer a barriga, porque são as únicas que conseguem rir das coisas estúpidas que fazemos, sem nos acusar ou nos chamar de retardadas.
É com elas que dividimos a conta do bar, da balada, da pizza, do táxi, do trem, do metrô, que nos dá carona ou empresta o bilhete único, se estamos no auge da pobreza. São elas que nos ensinam técnicas de maquiagem, qual absorvente é mais legal, como funciona a pílula do dia seguinte, indicam chá milagroso para fazer descer, nos dão os endereços das melhores sex-shops.
É para elas que contamos as fantasias que o amado insiste em querer realizar com a gente ou sobre aqueles dias em que parecemos possuídas e pedimos para ser chamadas de cachorra ou coisa parecida. Também são elas que nos alertam se o escolhido tem um comportamento suspeito, como sintomas de viadagem, ego inflado ou cafajestice aguda.
Com tudo isso, fica impossível dizer que amigas não são importantes. Importantes só não, fundamentais eu diria. Família você ama incondicionalmente, sem escolha ou chance de questionar se é a melhor ou a adequada. Mas amigas....essas você pode escolher. Melhor que isso, você é ESCOLHIDA para fazer parte da vida delas como uma peça-chave. Ser amiga representa criar um vínculo com pessoas com as quais nos espelhamos, seja porque se parecem conosco e falam a nossa língua, seja porque são diferentes de nós e podem nos ensinar outras formas de se ver a vida. Independente de qualquer coisa, ninguém vive sem elas. Nem eu sem as minhas.

Minhas Carries - 1ª Parte


Carrie 1


Filmes de terror sempre me fascinaram. Não por escolha, devo esclarecer, mas por puro acaso. Como sou da época em que TV a cabo não existia e as crianças assistiam ao que passasse, acabei vendo muito vampiro, bruxa, lobisomen e afins. E foi assim que desenvolvi o gosto pela coisa. Também foi por acaso que numa noite me deparei com a primeira Carrie da minha vida. O Filme era “Carrie, a estranha” e encarnando a personagem, a atriz Sissy Spaceck. Eu não fazia a menor idéia sobre o tema do tal filme, mas resolvi assistir. Sissy, com aquela fisionomia estranha, com uma beleza gélida de morta-viva, dava medo, claro. Mas também aparentava uma enorme fragilidade. A gente olhava pra ela a gente e não sabia se tinha vontade de dar colo ou sair correndo. No desenrolar do filme, descobri que ele tinha um roteiro interessantíssimo: uma adolescente tímida e sem amigos, filha de uma beata louca, que não deixa a coitada se relacionar com ninguém, descobre que tem poderes telecinéticos. Hoje, talvez a fórmula já esteja meio batida, mas naquela época, no auge dos meu 13 ou 14 anos, aquilo era o máximo! Me identifiquei logo com a pobre Carrie, sozinha e infeliz, feia e sempre ridicularizada pelos colegas na escola. Também eu era uma adolescente feiosa, cabeçuda, magrela, sem muitos amigos. Formei um pequeno grupo com outros "excluídos", igualmente feiosos com eu, claro. Nossa única vantagem era ir bem nas provas, mas até isso parecia ser um estigma e logo ganhamos o carinhoso apelido de CDFs. Nem de longe lembrávamos os deuses da escola, criaturas que mal tinham saído das fraldas, mas que já olhavam para o mundo de cima para baixo. Nós, éramos os anônimos, figuras apagadas escondidas pelos cantos. Apesar de dizer o contrário, ficávamos imaginando como era ser a rainha da escola, sonhando com o assédio e esse poder sobre os meninos. Mesmo porque, toda menina fica quer ser uma linda mulher, mas a maioria acaba meio confusa quando entra na adolescência. Algumas se tornam adolescentes lindas, sim, cumprindo a promessa de “mulherão”. Outras, como o meu caso, vão crescendo desordenadamente e logo estão com peitos enormes, pernas que não acompanham a evolução peitoral, um cabelo que nunca consegue controlar e a cara cheia de espinha. Pra completar, o garoto que a gente gosta sempre faz piadinhas a nosso respeito e anda pra cima e pra baixo desfilando com uma das deusas da escola. Só lembra da nossa existência em dia de prova. Assim, quando vi Carrie, no final do filme, numa cena onde jogam sangue de porco nela, ridicularizado a coitada diante de todos e ela decide se vingar, lançando aquele olhar gélido e arremessando objetos, matando todo mundo, percebi que ela tinha virado minha musa. Sim, porque ela representava todas as adolescentes feiosas do mundo, inclusive eu. O próprio Stephen King (maravilhoso!!), autor do livro que originou o filme, declarou que se inspirou em adolescentes “excluídas” socialmente para escrever a obra. Segundo ele, ficou impressionado em como tem garotas que sofrem com esse tipo de problema. Pois é, as pessoas nem imaginam....Eu, por exemplo, durante dias, meses, anos mantive o desejo secreto de poder ter poderes telecinéticos para esmagar a cabeça daquele povo que me zoava na escola!! Que faziam piadinhas cruéis, mas sempre pediam ajuda na hora de entender português, literatura ou qualquer outra coisa. Descobri que se tornar adulta não era assim tão fácil. Sem comentários....Ainda bem que essa era acabou!!! Sissy Spaceck? Virou a mãe da Samara Morgan (Minha musa mirim!), no filme “O Chamado 2”. Mas descobri que olhar pra ela ainda dá medo.....

Minhas Carries - 2ª Parte


Carrie 2


Já com 30 anos, devidamente curada do complexo de inferioridade, madura e segura, eis que surge minha outra Carrie. Inteligente, simpática, espirituosa, enfim, encantadora! Nada a ver com a primeira, tão problemática. Óbvio que me identifiquei à primeira vista. Uma das personagens do seriado de TV “Sex and the City”, Carrie, interpretada pela atriz Sarah Jéssica Parker, tem muito da pessoa na qual me tornei hoje. Prepotência? Não. Acho que ela tem muito de toda e qualquer mulher solteira, com mais de 30 anos. Talvez o charme dela seja justamente fruto da idade, pois é nessa fase que descobrimos mais sobre nós mesmas, é onde buscamos melhorar, é quando aprendemos a valorizar as coisas boas da vida. Outra vez, resolvi comparar. Como eu havia mudado tanto? Daquela adolescente feia e rejeitada sobrou pouco, ou quase nada. Também, pudera! Haja auto-análise para tentar descobrir o que tinha de errado. Aí descobri que NÂO TINHA nada errado, eu só precisava ser eu mesma, não me preocupar com ninguém. Eu tinha meus valores, afinal todo mundo tem. Acho que daquela adolescente tímida e complexada só restou o eterno espírito não de CFD, mas de alguém que gosta de usar o cérebro. Outro dia ouvi o seguinte comentário num filme: “mulheres que são feias na adolescência, mas que ficam bonitas depois são as melhores, porque enquanto são feias, criam um mecanismo de defesa e desenvolvem uma inteligência incrível. Com o tempo, acabam aprendendo a se cuidar e ficam bonitas e aí se tornam completas”. E não é que isso pode ter um fundo de verdade? O fato é que essa Carrie é um dos meus ídolos atuais. É uma personagem rica, moderna, verdadeira. Traz à tona os anseios e desejos das mulheres solteiras, independentes e que sabem aproveitar a vida. Esclarece muito sobre relacionamentos. E, apesar dos homens não entenderem o porquê do sucesso dela e até mesmo do seriado em si, nós mulheres entendemos perfeitamente. Reconhecemos os assuntos que ela aborda em cada episódio. Talvez até muitas de nós tenham um Mr. Big, aquele cara maravilhoso, que nos envolve numa relação complicada e cheio de altos e baixos. Temos amigas que estão sempre ali quando precisamos. Temos problemas de todo tipo, mas tiramos tudo de letra e sem descer do salto!Enfim, foi ela que nos mostrou como é deliciosa a vida de solteira e o quanto é bom ter amigas. O mais engraçado de tudo é que a própria Sarah nunca havia feito um papel glamouroso. Boa parte de seus papéis era secundário, porque ela nunca foi dotada de uma beleza estonteante. É baixa, magra, do tipo mignon. Mas inspirou milhares de mulheres no mundo todo, ao exibir uma personagem tão cativante. Carrie mostrou ao mundo que podemos ser maravilhosas, mesmo com um nariz ligeiramente exagerado e sem possuir um rosto como o da Angelina Jolie ou um corpo como o de Beyonce Knowles. Viva a maturidade!!!!!! E, meninas, nada de desespero....Na adolescência somos uma coisa, quando crescemos, nos tornamos outra. Calma, essas espinhas vão sumir!!

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Conhece a ti mesmo!


Auto-conhecimento é uma coisa difícil. Poucas pessoas conseguem ter uma noção real de quem são. Algumas sequer fazer esforço nesse sentido. O resultado é um mar de gente esquisita, que se diz uma coisa, pensa que é outra e, na verdade, é uma terceira completamente diferente das outras duas.

Essa semana tive a prova irrefutável disso. Diante da atitude totalmente incoerente de uma pessoa, fiquei pensando no quanto as pessoas se enganam quanto a si mesmas. “Conhece-te a ti mesmo”, diz um antigo ditado grego. Eis o grande segredo da Humanidade, se conhecer! Esse é o maior desafio para nós, pobres mortais, que vivemos num mundo tão cheio de futilidades, mentiras, conceitos equivocados e uso constante de máscaras. Nos mascaramos de acordo com cada ocasião, conforme a situação exige, para agradar as pessoas ou, o que é pior, para nos escondermos delas.

Fico impressionada com o perfil do chamado homem moderno. No ambiente de trabalho, a coisa fica ainda pior. Ego inflado, competitividade desenfreada, inveja sem limites, egoísmo em excesso são cada dia mais comuns. Tudo com uma nova roupagem, claro. O que antes poderia ser considerado negativo agora é a tradução livre do que é vendido e disseminado como a "valorização" de si mesmo. É o que se pede atualmente: ambição, vontade de vencer, de crescer. Puxar o tapete de alguém, não é mais sacanagem e sim um reflexo do quanto a competitividade é estimulante. Talvez até pudesse ser assim. Esses conceitos até poderiam ser encarados de forma positiva, não fossem as mutações que provocam em indivíduos de mente fraca e personalidade insegura.

Eu tinha uma amiga. Ou achava que tinha. A convivência diária permitiu que apronfundássemos a amizade e então percebi que ela não era exatamente como eu esperava (isso também é um problema, já que criamos muita expectativa em relação aos outros, mas isso é outro assunto....) O fato é que ela era contraditória, do tipo que adorava criar personagens. Eram muitos, mas a mais usada era da “mocinha simpática que se dá bem com todo mundo”. Uma farsa. Na verdade ela era uma pessoa extremamente crítica. Em demasia com os outros, mas muito pouco consigo mesma. Falava mal de todo mundo, absolutamente TODOS, do diretor à copeira. Um horror. Fiquei triste, claro, mas também desconfiada, afinal, o que será que ela falava de mim?? Percebi que da “mocinha simpática e prestativa com todos” não havia nada. Ela era uma pessoa amarga, chata, cínica, falsa e arrogante. Difícil de acreditar.... E cada uma das muitas facetas dela fui descobrindo aos poucos. Cada dia era uma descoberta. O pior é que, com o tempo, percebi que ela não tinha consciência do que fazia. Quer dizer, ela tinha um lado ruim, um lado que ela precisava trabalhar, que precisava ter consciência de que ele existia para, só então, fazer algo a respeito. O engraçado é que quem precisava mudar eram os outros, segundo ela. Até rótulos era ela quem dava. “Fulana é tão arrogante, você não acha?”. “Você viu como ela é falsa?”. “Nossa, ela não merece ganhar tudo isso, é uma egoísta”. “Eu sou uma excelente profissional, mereço coisa melhor”.

Me assustou tamanha capacidade do ser humano em envenenar, em reclamar, em ver só coisas ruins, em enxergar os defeitos dos outros com lente de aumento, como se ela mesma fosse a perfeição em pessoa. Aliás, ela, o marido e a filha. Um trio lindo, perfeito e feliz (!). Mas me assustou mais ainda o desconhecimento de si mesma. Como pode alguém ter uma idéia tão errada de si mesma? Se auto proclamar uma pessoa “simpática, justa, amável e competente”, com um histórico desses? Será que ela não analisa as próprias atitudes? O comportamento? Até que ponto ela realmente se conhece?

Como qualquer um, ela tem suas qualidades, claro. Mas atrás daquela personalidade difícil, fica complicado as pessoas enxergarem algo bom. É é o que os mais velhos chamam de “geniosa”. E isso até poderia ter um lado legal. Bem canalizado, poderia se transformar em determinação, coragem, disposição. Mas no caso dela, isso não acontece. E a situação fica completamente surreal. A pessoa é de um jeito, mas acredita fielmente ser de outro. Pelo total desconhecimento de sua própria personalidade, cria uma caricatura de si mesma e vende essa imagem sem pensar duas vezes.

Imagina alguém que reclama da copeira porque ela fala alto? Das pessoas que fazem barulho enquanto ela come? Que reclama o tempo todo do chefe, mesmo ele sendo amigo de longa data e tendo arrumado um emprego pra ela, com um bom salário? Que faz cara feia pra amiga, porque ela, num dia atípico, saiu para almoçar com um dos chefes? Que faz piadinha de tudo e de todos? Que prega para a empresa inteira que é super prestativa, mas que é incapaz de ajudar outro departamento só por birra? Esses são só alguns exemplos...

Ao perceber essas atitudes, me afastei. E ela passou a me ver como inimiga. Começou a achar que eu fazia parte do “outro time”, aquele imaginário, que só existe na cabeça paranóica dela. Parece que o mundo é dividido em “estão comigo” e “estão contra mim”. Detalhe: ninguém faz a menor idéia disso, porque a imagem é sempre de “me dou bem com todos”. Dá pra ver a complexidade da coisa?? Complicado!!!

Apesar de tudo isso, nada se compara ao que descobri hoje. A grande faceta, a pior delas, descoberta hoje, foi a maldade. Descobri que aquela pessoa, que há algum tempo se mostrava tão amiga, é capaz de prejudicar pessoas. E isso é o pior que qualquer outra coisa que ela tenha feito. Ser alienada, não se conhecer, não respeitar os outros ou as diferenças entre as pessoas, ainda relevo. Mas prejudicar alguém pelo prazer puro e simples de ver o outro se dar mal? Esse é um traço que eu, definitivamente, prefiro manter à distância. Acredito na bondade e na firmeza de caráter. Acredito que possamos resolver diferenças sem prejudicar alguém. Acredito nos bons corações. E nos ruins também. Mas até neles deposito esperança, pois todos podem mudar. É um trabalho árduo, uma tarefa extremamente difícil e que só o exercício diário pode ajudar. Não cabe a ninguém julgar, nem é esse o meu propósito, afinal todos têm defeitos, é da natureza humana. Mas estamos nessa merda de mundo justamente pra isso, para nos conhecer e melhorar sempre. Infelizmente (ou felizmente), essa jornada é individual, não podemos realizá-la por ninguém. Por isso, fico triste por ver alguém assim, tão perdido. Me pergunto onde ela vai chegar.....

Pais x Filhos


“Isso acontece nas melhores famílias”. Esse clichê é um dos mais antigos do mundo, mas sempre se encaixa nas merdas que acontecem com a gente, principalmente quando o assunto é a pai, mãe e afins.

Uma vez discuti com uma amiga porque comentei que família a gente aprende a gostar e a aceitar, do jeito que ela é. Ela achou absurdo, disse que eu “não gostava da minha família, pra falar aquilo”. Comentário escroto, claro. Óbvio que gosto da minha família! A questão é até que ponto as regras impostas pelo sistema (eu sei, parece discurso de anarquista) influenciam essa relação e nos impede de ver a coisa como ela realmente é.

Famílias são formadas por pessoas. Pessoas são seres humanos. Seres humanos, por sua vez, são aquelas criaturas cheias de defeitos e com dificuldade enorme em percebê-los, compreendê-los e, principalmente, assumi-los. Não é à toa que alguém inventou os famosos sete pecados capitais (só sete?????). Acho que o objetivo era conseguir uma fuga, uma simples forma de nos redimir da culpa e jogar tudo em cima das pobres criaturinhas vermelhas. Em algumas culturas, essas criaturas são chamadas demônios. Teoricamente, são seres que nos instigam a fazer coisas ruins. Pode até ser. Mas teologia à parte, acredito que todas as coisas que fazemos, ou melhor, esses “defeitos” tão próprios do ser humano não têm nada a ver com diabinhos buzinando na nossa orelha. São simplesmente traços da nossa personalidade. Em maior ou menor escala, todo mundo sofre com os tais pecados, isso é fato. Inveja, egoísmo, vaidade, luxúria......Quem não tem uma pontinha de cada um?

Eu, por exemplo. Sou a mais nova de uma família de seis irmãos. O mais novo é meu irmão Jorge, o caçula super querido. Querido mesmo, porque ele é um fofo, quase não deu trabalho pros meus pais. Já eu.....Sempre fui a briguenta, a chata, a rebelde, a sem juízo. Perdi a virgindade aos 16, engravidei aos 20, tive filho aos 21. Foda. Não quis casar, muito menos tirar. Fodíssimo!! Discuti com a família toda por conta disso. E essa foi só uma das milhões de vezes que bati de frente com meus pais ou com algum outro membro da família. O maior problema é que antes eu não conseguia entender porquê. Não entendia porque às vezes tinha vontade de sumir de casa, tinha raiva do meu pai ou queria matar minha irmã. Como eu podia ter esses sentimentos medonhos pela minha família?? Meu Deus, será que eu era como a Suzanne Richtoffen??? Entrava em crise, só de pensar nisso. A família, de um modo geral, sempre foi bacana e unida, mas, vira e mexe tinha arranca-rabos e eu tinha vontade de sumir.

Só quando fiz 30 anos, é que entendi. A família é a base de tudo, sim. É ela que nos dá o embasamento de quem precisamos ser para enfrentar a vida, que nos passa conceitos e valores, que nos ensina e nos prepara para vida. Ela é nosso porto seguro, é pra onde voltamos sempre que a coisa aperta. Eu diria que a família funciona como o útero materno, aquele lugar cheio de segurança, onde queremos ficar quando nos sentimos infelizes e sozinhos no mundo.

Essa realidade se abriu quando fui morar sozinha. Foi um verdadeira descoberta de mim mesma! Descobri que, apesar da família ser o alicerce, todos os componentes (inclusive eu) tem inúmeros defeitos. Cada um tem uma forma de ver as coisas (apesar dos ensinamentos terem sidos passados igualmente). Cada um tem uma personalidade própria, defeitos peculiares, ideais diferentes. Agora imagina uma família grande, como a minha! Seis irmãos, cada um mais cheio de personalidade do que o outro! Nossa...Toda família tem os mesmos problemas e, geralmente, pelos mesmos motivos. O engraçado é que as pessoas não gostam de tocar no assunto. Assumir incompatibilidade de gênios em família é um verdadeiro tabu. Muita gente sente, mas quase ninguém assume. É como se falar no assunto fosse uma prova da imperfeição dos pais, o que é quase um sacrilégio para alguns.

Toda essa diferença na forma de pensamento entre pais e filhos causa conflitos gritantes. É um tal de “você não ouve o que eu falo” ou “você não segue meus conselhos” ou ainda “pra quem essa menina puxou?”. E isso geralmente acontece quando os filhos optam por caminhos que os pais não escolheriam. Por falta de opção ou por encarar a vida de outra forma, o fato é que somos livres. Quando crianças, somos guiados, mas na fase adulta somos perfeitamente capazes de andar sozinhos, ainda que os pais não aceitem isso.

Eu tive grandes atritos por causa das minhas escolhas. Na adolescência, era baladeira demais. Brigava com meu pai, porque ele achava errado sair com tanta freqüência. E eu ia! A pé, de ônibus, de carro, de metrô, não importava. Depois foi o sexo. Minha família ficou horrorizada porque engravidei e não quis casar (“o que as pessoas vão dizer?”). Eu, sinceramente, estava cagando e andando pro povo. Anos depois, eles disseram que não casar foi uma das decisões mais acertadas da minha vida. Pois é. Depois fui morar sozinha. Ninguém falou muito, mas sinto que eles preferiam que eu ficasse com eles e só saísse casada, de preferência com um homem maduro, estabilizado, talvez jornalista como eu, e que gerasse lindos filhos dele. Namoro há três anos com um cara oito anos mais novo, que ainda tá na faculdade e que tá começando agora a carreira de designer. Mais conflitos? Por ora não, porque agora consigo lidar melhor com as nossas diferenças. Mas acho que ainda vou provocar polêmica, porque eles me acham cheia de personalidade, com um “gênio difícil” e idéias, digamos, modernas demais. Morar sozinha e ter as rédeas da minha vida sob controle foi uma forma de evitar discussões e o confronto de idéias. E de conviver melhor com minha família.

Além disso, percebi outro ponto importante:o ser humano precisa de liberdade. Cada um precisa viver à sua maneira, de acordo com opções feitas por si mesmo, sem medo de errar ou quebrar a cara. Isso deveria ser muito bem compreendido pelos pais, pois se eles confiam em tudo o que passaram para seus filhos, deveriam saber que tipo de pessoa ela se tornou. Mas não. O que acontece é que os pais têm uma dificuldade enorme em aceitar que os filhos podem viver sem eles, que podem ser independentes. “Podem” não, eles são!!! A questão é que, muitas vezes, os filhos demoram para perceber isso. Acham que precisam ficar ali, na barra da sai da mãe ou correndo pro colo do pai. Vivem os sonhos dos pais e não os deles mesmos. Não estou fazendo apologia ao abandono, sair pra curtir a vida e botar os pais num asilo para idosos. Nada disso! Mas precisamos caminhar sozinhos. São as escolhas que fazemos e a possibilidade de erro ou acerto é que nos dá a dimensão da nossa força.

Amo meu pais, mas a forma que eles têm de encarar a vida é diferente da minha. Os conceitos, ainda que sejam os mesmos passados a eles, são ligeiramente alterados, conforme minhas próprias percepções das coisas. Isso significa que eu sou totalmente diferente dos meus pais, quando eles tinham a minha idade, por exemplo. E por quê? Porque o mundo está em constante mudança e os conceitos nem sempre se adequam à nossa época. Então, precisamos dar uma “reciclada” neles e quem sabe até dar um novo sentido àquilo que aprendemos.

Para mim, o mundo é um grande e delicioso brinquedo e eu sinto uma necessidade enorme de fazer coisas, coisas que provavelmente meus pais não aprovariam. Quero voltar a morar sozinha, quero ter meu carro. Quero educar meu filho do meu jeito (essa, aliás, já é uma mudança bastante visível). Quero que meu filho seja meu amigo, que tenha total liberdade comigo, leve a namorada pra dormir na nossa casa. Quero poder fumar com ele, beber até, se tiver vontade. Quero falar de sexo com ele, com meus amigos, com quem me interessar. Queria ser jornalista e consegui, mas quero mais. Quero ser correspondente em Londres, viajar, conhecer o mundo e falar sobre ele. Quero entender de economia, política, Bolsa e relações internacionais. Quero namorar, transar com quem eu quiser (homem, mulher, vibrador, cachorro, planta..) e não ter vergonha ou medo. Quero poder cozinhar e receber meus amigos para bater papo regado a café com canela ou uma cervejinha. Quero acordar meio-dia no domingo, sem ninguém pra me dizer que isso é errado. Quero assistir TV, mas sem aquela visão de senso comum, sem ser conduzida. Quero ser uma formadora de opinião, inclusive sobre coisas que ainda nem sei, mas que vou aprender.

O mundo é diferente para pais e filhos e isso, pra quem convive dia a dia, é dificílimo! É como casamento, se não rola afinidade, não há como conviver. Se não houver as mesmas idéias, os mesmos anseios, as mesmas expectativas, vira simplesmente um acordo convencional. É preciso respeito, de ambos os lados. Dos filhos, em relação às idéias tradicionais dos pais, e dos pais, em relação às novas concepções do filhos. O que todos buscam, na verdade, é a felicidade. E as pessoas só serão felizes quando encontrarem, cada uma, seu espaço no mundo. E isso não precisa, necessariamente, ser debaixo do mesmo teto.