sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Conhece a ti mesmo!


Auto-conhecimento é uma coisa difícil. Poucas pessoas conseguem ter uma noção real de quem são. Algumas sequer fazer esforço nesse sentido. O resultado é um mar de gente esquisita, que se diz uma coisa, pensa que é outra e, na verdade, é uma terceira completamente diferente das outras duas.

Essa semana tive a prova irrefutável disso. Diante da atitude totalmente incoerente de uma pessoa, fiquei pensando no quanto as pessoas se enganam quanto a si mesmas. “Conhece-te a ti mesmo”, diz um antigo ditado grego. Eis o grande segredo da Humanidade, se conhecer! Esse é o maior desafio para nós, pobres mortais, que vivemos num mundo tão cheio de futilidades, mentiras, conceitos equivocados e uso constante de máscaras. Nos mascaramos de acordo com cada ocasião, conforme a situação exige, para agradar as pessoas ou, o que é pior, para nos escondermos delas.

Fico impressionada com o perfil do chamado homem moderno. No ambiente de trabalho, a coisa fica ainda pior. Ego inflado, competitividade desenfreada, inveja sem limites, egoísmo em excesso são cada dia mais comuns. Tudo com uma nova roupagem, claro. O que antes poderia ser considerado negativo agora é a tradução livre do que é vendido e disseminado como a "valorização" de si mesmo. É o que se pede atualmente: ambição, vontade de vencer, de crescer. Puxar o tapete de alguém, não é mais sacanagem e sim um reflexo do quanto a competitividade é estimulante. Talvez até pudesse ser assim. Esses conceitos até poderiam ser encarados de forma positiva, não fossem as mutações que provocam em indivíduos de mente fraca e personalidade insegura.

Eu tinha uma amiga. Ou achava que tinha. A convivência diária permitiu que apronfundássemos a amizade e então percebi que ela não era exatamente como eu esperava (isso também é um problema, já que criamos muita expectativa em relação aos outros, mas isso é outro assunto....) O fato é que ela era contraditória, do tipo que adorava criar personagens. Eram muitos, mas a mais usada era da “mocinha simpática que se dá bem com todo mundo”. Uma farsa. Na verdade ela era uma pessoa extremamente crítica. Em demasia com os outros, mas muito pouco consigo mesma. Falava mal de todo mundo, absolutamente TODOS, do diretor à copeira. Um horror. Fiquei triste, claro, mas também desconfiada, afinal, o que será que ela falava de mim?? Percebi que da “mocinha simpática e prestativa com todos” não havia nada. Ela era uma pessoa amarga, chata, cínica, falsa e arrogante. Difícil de acreditar.... E cada uma das muitas facetas dela fui descobrindo aos poucos. Cada dia era uma descoberta. O pior é que, com o tempo, percebi que ela não tinha consciência do que fazia. Quer dizer, ela tinha um lado ruim, um lado que ela precisava trabalhar, que precisava ter consciência de que ele existia para, só então, fazer algo a respeito. O engraçado é que quem precisava mudar eram os outros, segundo ela. Até rótulos era ela quem dava. “Fulana é tão arrogante, você não acha?”. “Você viu como ela é falsa?”. “Nossa, ela não merece ganhar tudo isso, é uma egoísta”. “Eu sou uma excelente profissional, mereço coisa melhor”.

Me assustou tamanha capacidade do ser humano em envenenar, em reclamar, em ver só coisas ruins, em enxergar os defeitos dos outros com lente de aumento, como se ela mesma fosse a perfeição em pessoa. Aliás, ela, o marido e a filha. Um trio lindo, perfeito e feliz (!). Mas me assustou mais ainda o desconhecimento de si mesma. Como pode alguém ter uma idéia tão errada de si mesma? Se auto proclamar uma pessoa “simpática, justa, amável e competente”, com um histórico desses? Será que ela não analisa as próprias atitudes? O comportamento? Até que ponto ela realmente se conhece?

Como qualquer um, ela tem suas qualidades, claro. Mas atrás daquela personalidade difícil, fica complicado as pessoas enxergarem algo bom. É é o que os mais velhos chamam de “geniosa”. E isso até poderia ter um lado legal. Bem canalizado, poderia se transformar em determinação, coragem, disposição. Mas no caso dela, isso não acontece. E a situação fica completamente surreal. A pessoa é de um jeito, mas acredita fielmente ser de outro. Pelo total desconhecimento de sua própria personalidade, cria uma caricatura de si mesma e vende essa imagem sem pensar duas vezes.

Imagina alguém que reclama da copeira porque ela fala alto? Das pessoas que fazem barulho enquanto ela come? Que reclama o tempo todo do chefe, mesmo ele sendo amigo de longa data e tendo arrumado um emprego pra ela, com um bom salário? Que faz cara feia pra amiga, porque ela, num dia atípico, saiu para almoçar com um dos chefes? Que faz piadinha de tudo e de todos? Que prega para a empresa inteira que é super prestativa, mas que é incapaz de ajudar outro departamento só por birra? Esses são só alguns exemplos...

Ao perceber essas atitudes, me afastei. E ela passou a me ver como inimiga. Começou a achar que eu fazia parte do “outro time”, aquele imaginário, que só existe na cabeça paranóica dela. Parece que o mundo é dividido em “estão comigo” e “estão contra mim”. Detalhe: ninguém faz a menor idéia disso, porque a imagem é sempre de “me dou bem com todos”. Dá pra ver a complexidade da coisa?? Complicado!!!

Apesar de tudo isso, nada se compara ao que descobri hoje. A grande faceta, a pior delas, descoberta hoje, foi a maldade. Descobri que aquela pessoa, que há algum tempo se mostrava tão amiga, é capaz de prejudicar pessoas. E isso é o pior que qualquer outra coisa que ela tenha feito. Ser alienada, não se conhecer, não respeitar os outros ou as diferenças entre as pessoas, ainda relevo. Mas prejudicar alguém pelo prazer puro e simples de ver o outro se dar mal? Esse é um traço que eu, definitivamente, prefiro manter à distância. Acredito na bondade e na firmeza de caráter. Acredito que possamos resolver diferenças sem prejudicar alguém. Acredito nos bons corações. E nos ruins também. Mas até neles deposito esperança, pois todos podem mudar. É um trabalho árduo, uma tarefa extremamente difícil e que só o exercício diário pode ajudar. Não cabe a ninguém julgar, nem é esse o meu propósito, afinal todos têm defeitos, é da natureza humana. Mas estamos nessa merda de mundo justamente pra isso, para nos conhecer e melhorar sempre. Infelizmente (ou felizmente), essa jornada é individual, não podemos realizá-la por ninguém. Por isso, fico triste por ver alguém assim, tão perdido. Me pergunto onde ela vai chegar.....

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