sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Pais x Filhos


“Isso acontece nas melhores famílias”. Esse clichê é um dos mais antigos do mundo, mas sempre se encaixa nas merdas que acontecem com a gente, principalmente quando o assunto é a pai, mãe e afins.

Uma vez discuti com uma amiga porque comentei que família a gente aprende a gostar e a aceitar, do jeito que ela é. Ela achou absurdo, disse que eu “não gostava da minha família, pra falar aquilo”. Comentário escroto, claro. Óbvio que gosto da minha família! A questão é até que ponto as regras impostas pelo sistema (eu sei, parece discurso de anarquista) influenciam essa relação e nos impede de ver a coisa como ela realmente é.

Famílias são formadas por pessoas. Pessoas são seres humanos. Seres humanos, por sua vez, são aquelas criaturas cheias de defeitos e com dificuldade enorme em percebê-los, compreendê-los e, principalmente, assumi-los. Não é à toa que alguém inventou os famosos sete pecados capitais (só sete?????). Acho que o objetivo era conseguir uma fuga, uma simples forma de nos redimir da culpa e jogar tudo em cima das pobres criaturinhas vermelhas. Em algumas culturas, essas criaturas são chamadas demônios. Teoricamente, são seres que nos instigam a fazer coisas ruins. Pode até ser. Mas teologia à parte, acredito que todas as coisas que fazemos, ou melhor, esses “defeitos” tão próprios do ser humano não têm nada a ver com diabinhos buzinando na nossa orelha. São simplesmente traços da nossa personalidade. Em maior ou menor escala, todo mundo sofre com os tais pecados, isso é fato. Inveja, egoísmo, vaidade, luxúria......Quem não tem uma pontinha de cada um?

Eu, por exemplo. Sou a mais nova de uma família de seis irmãos. O mais novo é meu irmão Jorge, o caçula super querido. Querido mesmo, porque ele é um fofo, quase não deu trabalho pros meus pais. Já eu.....Sempre fui a briguenta, a chata, a rebelde, a sem juízo. Perdi a virgindade aos 16, engravidei aos 20, tive filho aos 21. Foda. Não quis casar, muito menos tirar. Fodíssimo!! Discuti com a família toda por conta disso. E essa foi só uma das milhões de vezes que bati de frente com meus pais ou com algum outro membro da família. O maior problema é que antes eu não conseguia entender porquê. Não entendia porque às vezes tinha vontade de sumir de casa, tinha raiva do meu pai ou queria matar minha irmã. Como eu podia ter esses sentimentos medonhos pela minha família?? Meu Deus, será que eu era como a Suzanne Richtoffen??? Entrava em crise, só de pensar nisso. A família, de um modo geral, sempre foi bacana e unida, mas, vira e mexe tinha arranca-rabos e eu tinha vontade de sumir.

Só quando fiz 30 anos, é que entendi. A família é a base de tudo, sim. É ela que nos dá o embasamento de quem precisamos ser para enfrentar a vida, que nos passa conceitos e valores, que nos ensina e nos prepara para vida. Ela é nosso porto seguro, é pra onde voltamos sempre que a coisa aperta. Eu diria que a família funciona como o útero materno, aquele lugar cheio de segurança, onde queremos ficar quando nos sentimos infelizes e sozinhos no mundo.

Essa realidade se abriu quando fui morar sozinha. Foi um verdadeira descoberta de mim mesma! Descobri que, apesar da família ser o alicerce, todos os componentes (inclusive eu) tem inúmeros defeitos. Cada um tem uma forma de ver as coisas (apesar dos ensinamentos terem sidos passados igualmente). Cada um tem uma personalidade própria, defeitos peculiares, ideais diferentes. Agora imagina uma família grande, como a minha! Seis irmãos, cada um mais cheio de personalidade do que o outro! Nossa...Toda família tem os mesmos problemas e, geralmente, pelos mesmos motivos. O engraçado é que as pessoas não gostam de tocar no assunto. Assumir incompatibilidade de gênios em família é um verdadeiro tabu. Muita gente sente, mas quase ninguém assume. É como se falar no assunto fosse uma prova da imperfeição dos pais, o que é quase um sacrilégio para alguns.

Toda essa diferença na forma de pensamento entre pais e filhos causa conflitos gritantes. É um tal de “você não ouve o que eu falo” ou “você não segue meus conselhos” ou ainda “pra quem essa menina puxou?”. E isso geralmente acontece quando os filhos optam por caminhos que os pais não escolheriam. Por falta de opção ou por encarar a vida de outra forma, o fato é que somos livres. Quando crianças, somos guiados, mas na fase adulta somos perfeitamente capazes de andar sozinhos, ainda que os pais não aceitem isso.

Eu tive grandes atritos por causa das minhas escolhas. Na adolescência, era baladeira demais. Brigava com meu pai, porque ele achava errado sair com tanta freqüência. E eu ia! A pé, de ônibus, de carro, de metrô, não importava. Depois foi o sexo. Minha família ficou horrorizada porque engravidei e não quis casar (“o que as pessoas vão dizer?”). Eu, sinceramente, estava cagando e andando pro povo. Anos depois, eles disseram que não casar foi uma das decisões mais acertadas da minha vida. Pois é. Depois fui morar sozinha. Ninguém falou muito, mas sinto que eles preferiam que eu ficasse com eles e só saísse casada, de preferência com um homem maduro, estabilizado, talvez jornalista como eu, e que gerasse lindos filhos dele. Namoro há três anos com um cara oito anos mais novo, que ainda tá na faculdade e que tá começando agora a carreira de designer. Mais conflitos? Por ora não, porque agora consigo lidar melhor com as nossas diferenças. Mas acho que ainda vou provocar polêmica, porque eles me acham cheia de personalidade, com um “gênio difícil” e idéias, digamos, modernas demais. Morar sozinha e ter as rédeas da minha vida sob controle foi uma forma de evitar discussões e o confronto de idéias. E de conviver melhor com minha família.

Além disso, percebi outro ponto importante:o ser humano precisa de liberdade. Cada um precisa viver à sua maneira, de acordo com opções feitas por si mesmo, sem medo de errar ou quebrar a cara. Isso deveria ser muito bem compreendido pelos pais, pois se eles confiam em tudo o que passaram para seus filhos, deveriam saber que tipo de pessoa ela se tornou. Mas não. O que acontece é que os pais têm uma dificuldade enorme em aceitar que os filhos podem viver sem eles, que podem ser independentes. “Podem” não, eles são!!! A questão é que, muitas vezes, os filhos demoram para perceber isso. Acham que precisam ficar ali, na barra da sai da mãe ou correndo pro colo do pai. Vivem os sonhos dos pais e não os deles mesmos. Não estou fazendo apologia ao abandono, sair pra curtir a vida e botar os pais num asilo para idosos. Nada disso! Mas precisamos caminhar sozinhos. São as escolhas que fazemos e a possibilidade de erro ou acerto é que nos dá a dimensão da nossa força.

Amo meu pais, mas a forma que eles têm de encarar a vida é diferente da minha. Os conceitos, ainda que sejam os mesmos passados a eles, são ligeiramente alterados, conforme minhas próprias percepções das coisas. Isso significa que eu sou totalmente diferente dos meus pais, quando eles tinham a minha idade, por exemplo. E por quê? Porque o mundo está em constante mudança e os conceitos nem sempre se adequam à nossa época. Então, precisamos dar uma “reciclada” neles e quem sabe até dar um novo sentido àquilo que aprendemos.

Para mim, o mundo é um grande e delicioso brinquedo e eu sinto uma necessidade enorme de fazer coisas, coisas que provavelmente meus pais não aprovariam. Quero voltar a morar sozinha, quero ter meu carro. Quero educar meu filho do meu jeito (essa, aliás, já é uma mudança bastante visível). Quero que meu filho seja meu amigo, que tenha total liberdade comigo, leve a namorada pra dormir na nossa casa. Quero poder fumar com ele, beber até, se tiver vontade. Quero falar de sexo com ele, com meus amigos, com quem me interessar. Queria ser jornalista e consegui, mas quero mais. Quero ser correspondente em Londres, viajar, conhecer o mundo e falar sobre ele. Quero entender de economia, política, Bolsa e relações internacionais. Quero namorar, transar com quem eu quiser (homem, mulher, vibrador, cachorro, planta..) e não ter vergonha ou medo. Quero poder cozinhar e receber meus amigos para bater papo regado a café com canela ou uma cervejinha. Quero acordar meio-dia no domingo, sem ninguém pra me dizer que isso é errado. Quero assistir TV, mas sem aquela visão de senso comum, sem ser conduzida. Quero ser uma formadora de opinião, inclusive sobre coisas que ainda nem sei, mas que vou aprender.

O mundo é diferente para pais e filhos e isso, pra quem convive dia a dia, é dificílimo! É como casamento, se não rola afinidade, não há como conviver. Se não houver as mesmas idéias, os mesmos anseios, as mesmas expectativas, vira simplesmente um acordo convencional. É preciso respeito, de ambos os lados. Dos filhos, em relação às idéias tradicionais dos pais, e dos pais, em relação às novas concepções do filhos. O que todos buscam, na verdade, é a felicidade. E as pessoas só serão felizes quando encontrarem, cada uma, seu espaço no mundo. E isso não precisa, necessariamente, ser debaixo do mesmo teto.

Um comentário:

Anônimo disse...

Nani -
belo depoimento - e gostaria de reproduzi-lo no Jornal de Debates, onde estamos discutindo a virgindade.
Veja aqui:http://www.jornaldedebates.ig.com.br/index.aspx?tma_id=906

Aguardo resposta com seu OK.

Ricardo Paoletti
Editor
Jornal de Debates