
Carrie 1
Filmes de terror sempre me fascinaram. Não por escolha, devo esclarecer, mas por puro acaso. Como sou da época em que TV a cabo não existia e as crianças assistiam ao que passasse, acabei vendo muito vampiro, bruxa, lobisomen e afins. E foi assim que desenvolvi o gosto pela coisa. Também foi por acaso que numa noite me deparei com a primeira Carrie da minha vida. O Filme era “Carrie, a estranha” e encarnando a personagem, a atriz Sissy Spaceck. Eu não fazia a menor idéia sobre o tema do tal filme, mas resolvi assistir. Sissy, com aquela fisionomia estranha, com uma beleza gélida de morta-viva, dava medo, claro. Mas também aparentava uma enorme fragilidade. A gente olhava pra ela a gente e não sabia se tinha vontade de dar colo ou sair correndo. No desenrolar do filme, descobri que ele tinha um roteiro interessantíssimo: uma adolescente tímida e sem amigos, filha de uma beata louca, que não deixa a coitada se relacionar com ninguém, descobre que tem poderes telecinéticos. Hoje, talvez a fórmula já esteja meio batida, mas naquela época, no auge dos meu 13 ou 14 anos, aquilo era o máximo! Me identifiquei logo com a pobre Carrie, sozinha e infeliz, feia e sempre ridicularizada pelos colegas na escola. Também eu era uma adolescente feiosa, cabeçuda, magrela, sem muitos amigos. Formei um pequeno grupo com outros "excluídos", igualmente feiosos com eu, claro. Nossa única vantagem era ir bem nas provas, mas até isso parecia ser um estigma e logo ganhamos o carinhoso apelido de CDFs. Nem de longe lembrávamos os deuses da escola, criaturas que mal tinham saído das fraldas, mas que já olhavam para o mundo de cima para baixo. Nós, éramos os anônimos, figuras apagadas escondidas pelos cantos. Apesar de dizer o contrário, ficávamos imaginando como era ser a rainha da escola, sonhando com o assédio e esse poder sobre os meninos. Mesmo porque, toda menina fica quer ser uma linda mulher, mas a maioria acaba meio confusa quando entra na adolescência. Algumas se tornam adolescentes lindas, sim, cumprindo a promessa de “mulherão”. Outras, como o meu caso, vão crescendo desordenadamente e logo estão com peitos enormes, pernas que não acompanham a evolução peitoral, um cabelo que nunca consegue controlar e a cara cheia de espinha. Pra completar, o garoto que a gente gosta sempre faz piadinhas a nosso respeito e anda pra cima e pra baixo desfilando com uma das deusas da escola. Só lembra da nossa existência em dia de prova. Assim, quando vi Carrie, no final do filme, numa cena onde jogam sangue de porco nela, ridicularizado a coitada diante de todos e ela decide se vingar, lançando aquele olhar gélido e arremessando objetos, matando todo mundo, percebi que ela tinha virado minha musa. Sim, porque ela representava todas as adolescentes feiosas do mundo, inclusive eu. O próprio Stephen King (maravilhoso!!), autor do livro que originou o filme, declarou que se inspirou em adolescentes “excluídas” socialmente para escrever a obra. Segundo ele, ficou impressionado em como tem garotas que sofrem com esse tipo de problema. Pois é, as pessoas nem imaginam....Eu, por exemplo, durante dias, meses, anos mantive o desejo secreto de poder ter poderes telecinéticos para esmagar a cabeça daquele povo que me zoava na escola!! Que faziam piadinhas cruéis, mas sempre pediam ajuda na hora de entender português, literatura ou qualquer outra coisa. Descobri que se tornar adulta não era assim tão fácil. Sem comentários....Ainda bem que essa era acabou!!! Sissy Spaceck? Virou a mãe da Samara Morgan (Minha musa mirim!), no filme “O Chamado 2”. Mas descobri que olhar pra ela ainda dá medo.....
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