quarta-feira, maio 16, 2007

Vida de foca


Jornalista recém-formado é carinhosamente apelidado de foca. Também, pudera! As semelhanças não são poucas. Eu, por exemplo, percebi muitas....E as redações estão cheias deles, seres graciosos, alegres, sorridentes e loucos para agradar o grupo, principalmente os animais maiores e mais perigosos, que fazem questão de infernizar a vida das pobres coitadas. E eles são vários!!!!!
As focas do mar, por exemplo, são mamíferos adaptados à vida marinha. As focas das redações também são mamíferos, mas a facilidade de adaptação aos mares gelados do jornalismo impede que a adaptação dessas criaturas seja tranqüila.
Normalmente elas correm o tempo todo pra cima e pra baixo, tentando fazer zilhões de coisas ao mesmo tempo, procurando obedecer as regras impostas pelas morsas, aqueles seres parecidos com as focas (vale ressaltar que só parecem, porque no fundo são muito mais evoluídos e, justamente por isso, viraram aqueles chefes, gordos e bigodudos!).
As foquinhas, portanto, trabalham com todo o esmero, afinal, se prepararam anos para chegar a esse nível, para fazer parte desse seleto grupo de animais admiráveis. E nunca reclamam por fazer tudo o que fazem e receber por isso apenas algumas míseras sardinhas em troca, que mal dá para ajudar a criar a camada de gordura que ajuda a esquentar sua pele.
Quando resolvem sair da redação e mergulhar no jornalismo, descobrem o terror de águas gélidas. Até aí, tudo bem, vale a pena o esforço, já que elas gostam de mergulhar. Matéria aqui, matéria ali, tentativa, erro, tudo seria encarado mais facilmente se as focas não precisassem fugir de criaturas impiedosas que também circulam nessas águas.....Enormes, violentos e sedentos tubarões brancos, que não aceitam a idéia de compartilhar seu espaço com um ser tão inferior como uma foca. E fazem de tudo para que ela fuja dali o mais rápido possível, antes de ser devorada.
Quando são escaladas para mergulhar, geralmente é em algum assunto chato. Nenhum grande profissional/tubarão branco se dispõe a escrever sobre qualquer coisa, só assuntos de suma importância. Geralmente é a pobre foca que vai fazer aquela matéria mais fraquinha ou mesmo perambular pela favela, entrevistar pai-de-santo ou cobrir campeonato de iô-iô. E ainda vai feliz!!!
O pior é quando as focas, que afinal de contas são iniciantes na arte do jornalismo, precisam recorrer a esses tubarões brancos para uma eventual ajuda nesse ou naquele mergulho. “Como faço?”, “Qual seria a melhor pessoa para entrevistar?”, “Essa palavra tem crase?”....
Não fossem as dúvidas a dificuldade natural, é preciso um imenso jogo de cintura para ignorar os olhares de desaprovação das criaturas brancas que, ou resolvem não ajudar e deixam a foca à própria sorte, ou até ajudam, mas deixam claro a insignificância, a ignorância, a falta de discernimento e clareza de raciocínio, além do favor enorrrrrrrrrrrrrrrrrme que estão prestando à jovem foquinha.
Dependendo da região...ops...da redação, a foca pode encontrar outras criaturas marinhas, acostumadas com todo aquele jogo de gato e rato e até se apiedam das focas, ajudando a conquistar umas sardinhas extras em trabalhos esporádicos...Essas criaturas, porém, são cada vez mais raras. Atualmente, boa parte das focas está à mercê de alguma morsa pedante, gorda, bigoduda e chata ou fugindo do rei dos mares. Ou as duas coisas juntas! O que não falta nas redações, aliás, são seres perigosos, verdadeiros reis. E rainhas. E todos os outros animais precisam formar uma corte, estar à sua disposição sempre. A foca? De preferência que fique escondida num canto, sem aparecer muito.
As focas marinhas não possuem orelhas. As das redações têm, mas geralmente precisam fingir que não têm, evitando ouvir o que não pode e ser expulsa do grupo Ou mesmo serem acusadas de intrometidas.
As focas marinhas são excelentes nadadoras, assim como as das redações, e embora ambas consigam realizar belos mergulhos, não têm muita habilidade em terra firme, virando presa fácil para caçadores, ursos polares e morsas (pois é, elas de novo....).
Em 2002, durante a época de caça oficial de focas marinhas no Canadá, foram assassinadas mais de 300.000 espécimes. Aqui no Brasil, um número semelhante de focas-jornalistas tenta ingressar no mercado frio e cruel das redações, mas também deve morrer no meio do caminho.O único momento feliz da foca é durante o acasalamento. Tanto as focas marinhas quanto jornalistas se reproduzem em colônias. No caso das jornalistas, essas colônias geralmente são animados bares onde elas podem se misturar a outros de sua espécie, ou outras igualmente injustiçadas (como estagiotárias e secretinas), mas que tem uma vontade enorme de viver. Ou melhor, sobreviver. E nada como uma boa breja e um petisco para ajudar!!

2 comentários:

Anônimo disse...

Só posso elogiar o seu trabalho. Te achei por meio do portal Comunique-se ou foi do Jornal Metro (não me lembro ao certo).
Me identifiquei bastante com seus textos e gosto da forma com que você escreve.
Parabéns pelo seu Blog.
Um abraço.

Hertha
her.sch@hotmail.com

Anônimo disse...

Que excelente descrição do mundo jornalistico, fez-me lembrar Lima Barreto em seu formidável "Recordações do escrivão Isaías Caminha"...