
Enfim, minha matéria sobre o Second Life ficou pronta. Fiquei aliviada e com a sensação de dever cumprido. Apesar da sensação boa, porém, alguma coisa ainda me incomodava. Descobri que eu estava com uma necessidade enorme de falar sobre o assunto sob outro ângulo: o de uma simples usuária, ligeiramente devagar em tecnologia e totalmente leiga em vida digital.
O primeiro passo para escrever a matéria era criar o tal avatar. E foi exatamente aí que começou o meu calvário. Não tinha a menor idéia de como “gerar” uma criatura digital, nascida de mim, mas que não era exatamente uma filha e sim algo mais parecido com um clone meu. Enfim, aos trancos e barrancos, nasceu Lunnay Dryke, meu eu naquele mundo cheio de surpresas.
O sobrenome chique foi escolhido, digamos, por livre e espontânea pressão, já que é preciso escolher uma das famílias existentes no metaverso. Claro que me perguntei se a família que escolhi era centenária, se tinha posses virtuais, talvez até uma boa reputação. Será que os Dryke eram pessoas legais? Fosse como fosse, o nome era pomposo. Por algum motivo, Dryke me lembrava Drácula (eu sei, viagem total!) ou Draco e a pronúncia era bem agradável.
Escolhido o nome, nasci. Não pelada, como me disseram. Os avatares mais recentes já nascem devidamente vestidos, nada de gente nua e com cara de boba perambulando pelas ruas virtuais. Eu só não tinha rosto, aliás, demorei cerca de 1 mês para me dar conta de que eu precisava me “editar” e escolher exatamente quais feições eu teria, mas isso não era exatamente um problema.
Passado esse primeiro de sufoco, parti para a minha viagem rumo à Matrix. Aliás, pensando nisso eu bem que poderia ter escolhido Trinity....Bom, tarde demais. Lunnay Dryke já tinha dado o ar da graça naquele mundo estranho. Os primeiros instantes são, literalmente, estranhos. Caímos em uma espécie de “ilha de treinamento” e lá todos os novatos são orientados sobre como proceder na segunda vida. Confesso que não dei muita bola para o instrutor, que falava comigo e mais troçentas pessoas ao mesmo tempo, tão perdidas quanto eu. Aquela confusão de perguntas e gente perdida me enervava, então resolvi me virar sozinha.
É preciso dizer que eu sequer tinha alguma noção de como participar da brincadeira, era realmente como um recém-nascido, que não sabe nada sobre o mundo. Com isso, que as situações constrangedoras foram inevitáveis. A primeira delas foi quando meus pezinhos virtuais reclamaram do cansaço e decidi descansar. Eu também teria um ângulo melhor de quem chegasse e poderia observar com calma o comportamento do povo. Depois do que pareceu uma eternidade vi que não consegui executar um ato simples como sentar. Fiquei horas parada em frente a um banco, sem ter a menor idéia do que fazer e me sentindo uma perfeita idiota. Quando eu já ia desistir, um rapaz simpático me avisou que eu teria que dar alguns cliques para realizar certas ações como sentar e levantar. “Que idiota eu devo ter parecido, meu Deus....”. Esse foi apenas a primeira de muitas e levou dias para eu conseguir com que a pobre Lunnay tivesse certa mobilidade, conseguisse andar, sentar e ir de um lugar a outro sem grandes problemas.
Dias depois, resolvi que era hora de arriscar um vôozinho básico, afinal, todo mundo alardeava que essa era umas das grandes delícias do Second Life. Olhei atentamente para a tecla “voar” que aparecia na tela e fui em frente. Por alguns minutos, eu estava no céu e podia ver todos os meus amiguinhos avatares lá embaixo. Que emocionante, uma deliciosa sensação de liberdade! Quando resolvi descer, porém, descobri que não tinha feito a pergunta mais importante: como fazer para descer?? O resultado foi que me estatelei em cima de uma palmeira e fiquei lá durante um bom tempo, sacudindo braços e pernas de forma ridícula. Nesse momento, preferi sair do SL, tamanha a vergonha.
Quando entrei novamente, dessa vez, mais confiante, resolvi que era hora de fazer alguns contatos. Descobri o repórter de uma revista conhecida e imbuída de toda a minha simpatia, tentei iniciar uma conversa. O fulano, ou melhor, o avatar, porém, não deve ter achado a Lunnay muito atraente ou interessante, porque saiu de perto de mim rapidamente. Saí atrás, mas é claro que ele acabou voando e o máximo que consegui foi bater com a cara na porta de uma loja. Esse, aliás, era outro problema constante. Eu tinha dificuldade com portas, então, constantemente me batia contra uma delas. Passei a ter receio de entrar e muitas vezes perdia um tempão em frente às lojas calculando o espaço da bendita porta e, é claro, tentando não passar vergonha de novo.
O objetivo inicial de tentar conhecer pessoas acabou se revelando uma tarefa não muito fácil. Quando Lunnay nasceu, achei que ela faria parte de um novo mundo, animado, cheia de gente interessante, enfim, que “bombava”. Descobri que a coisa não é bem assim. Boa parte das ruas está sempre vazia e salvo alguns gatos pingados, não há muito com quem conversar. Fiquei me perguntando onde estaria a multidão que a imprensa tanta falava. Desde que foi criado, o números de avatares aumenta expressivamente, é verdade, mas o fato é que eu não tava vendo esse povo todo lá. Talvez estivesse entrando no horário errado, mas ainda assim não imaginei que os habitantes fossem tão escassos.
Bom, teria que arrumar alguma coisa para fazer. Como qualquer alma feminina, achei que fazer compras seria um bom programa, principalmente porque tinha ouvido que havia muita coisa bacana para se consumir naquele maravilhoso mundo. Me dei conta, porém, de que não tinha um mísero linden dóllar no bolso e que comprar qualquer coisa seria meio difícil. Aí bateu a deprê. Pobre na vida real tudo bem, mas no mundo virtual também? Ninguém merece!! Não ter amigos virtuais é triste, mas pior ainda é descobrir que no computador sou mais pobre do que na vida real! Nada de crediário, cartão de crédito, parcela, carnê. O negócio é tudo no cash. Humpf!
Eu tinha que arrumar um jeito de conseguir alguma renda e percebi que o lance seria arrumar um emprego. Mas como? Não tinha qualificação profissional virtual nenhuma e nem sabia como fazer contato, já que as lojas estavam sempre vazias. Quem sabe dançarina de boate? Talvez rendesse uma boa grana. Bom, mas se eu mal conseguia entrar em algum lugar sem brigar com a porta, o que dirá dançar ou rebolar!!! A vantagem era que poderia descobrir um pouco mais sobre o dark side daquele mundo digital. Todo mundo falava em abrir negócio, em ir a festas, em assistir palestras legais, mas eu sabia também que muita gente era atraída pelas coisas, digamos, politicamente incorretas que se pode fazer lá. Há casas de prostituição e o sexo rola sim. Esse, aliás, é um dos mercados que mais cresce por lá. Apesar de não ser o foco da minha matéria, eu TINHA que saber como aquelas pessoas realizavam um ato tão físico. A curiosidade feminina falou mais alto, admito.
Como nascemos seres assexuados no SL, para que se possa dar uma namoradinha qualquer é preciso dispor do órgão sexual, vendido facilmente em lojas especializadas. No entanto, como eu era pobre, fiquei na vontade. Não que eu esteja desesperada na vida real, mas é que como a repórter que sou, fiquei curiosa. A aventura virtual só não foi possível (e eu espero que o meu namorado jamais saiba disso) porque mais uma vez faltou verba. E a minha editora não tinha destinado nenhum realzinho para eu investir na (literalmente) pobre e (certamente) carente Lunnay.
Percebi que eu era um ser meio bizarro ali: pobre, sem rosto e sem sexo. Me senti meio “incompleta”. Mas aproveitei esse momento de reflexão da Lunnay para me perguntar: será que todo mundo que estava ali tinha realmente investido na vida real? Quer dizer, a coisa mais importante que descobri ao viver digitalmente foi que não dá para se divertir e aproveitar realmente a second life sem botar grana de verdade.É simplesmente impossível! Sem isso, o ser humano, ops, o avatar fica vagando a esmo, sem ter muito o que fazer. Esse, aliás, é outro problema. Tudo, absolutamente TUDO o que se queira fazer é preciso dispor de tempo. Para aprender a mexer no programa, para procurar os lugares, as pessoas, para perguntar, para fuçar. Quem quer entrar de cabeça no mundo virtual, tem que dispor de MUITO tempo livre na vida real. E isso, eu realmente não tinha. Além da Lunnay e suas aventuras, eu tinha que organizar a vida da Nani, trabalhar, namorar, fazer pesquisa, ser até dona de casa. E ainda comer, dormir...
O second Life é sim uma idéia interessante, mas digamos que ele ainda precisa melhorar, amadurecer. Talvez daqui a alguns anos, a coisa tenha evoluído e eu tenha mais avatares para interagir comigo e para quem eu possa fazer perguntas simples, como “como eu faço para ir para Paris?”. Sim, porque digitei Paris no search e cai num lugar estranho, que mais me lembrava a ilha do Dr. Moreau.... Desesperada, voltei imediatamente à familiar Berrini e suas lojas vazias. Com o susto, vi que passear virtualmente pelo mundo ainda é complicado para mim. E decidi que vou esperar o Neo (ou algum outro “escolhido”), para me guiar com segurança.
O primeiro passo para escrever a matéria era criar o tal avatar. E foi exatamente aí que começou o meu calvário. Não tinha a menor idéia de como “gerar” uma criatura digital, nascida de mim, mas que não era exatamente uma filha e sim algo mais parecido com um clone meu. Enfim, aos trancos e barrancos, nasceu Lunnay Dryke, meu eu naquele mundo cheio de surpresas.
O sobrenome chique foi escolhido, digamos, por livre e espontânea pressão, já que é preciso escolher uma das famílias existentes no metaverso. Claro que me perguntei se a família que escolhi era centenária, se tinha posses virtuais, talvez até uma boa reputação. Será que os Dryke eram pessoas legais? Fosse como fosse, o nome era pomposo. Por algum motivo, Dryke me lembrava Drácula (eu sei, viagem total!) ou Draco e a pronúncia era bem agradável.
Escolhido o nome, nasci. Não pelada, como me disseram. Os avatares mais recentes já nascem devidamente vestidos, nada de gente nua e com cara de boba perambulando pelas ruas virtuais. Eu só não tinha rosto, aliás, demorei cerca de 1 mês para me dar conta de que eu precisava me “editar” e escolher exatamente quais feições eu teria, mas isso não era exatamente um problema.
Passado esse primeiro de sufoco, parti para a minha viagem rumo à Matrix. Aliás, pensando nisso eu bem que poderia ter escolhido Trinity....Bom, tarde demais. Lunnay Dryke já tinha dado o ar da graça naquele mundo estranho. Os primeiros instantes são, literalmente, estranhos. Caímos em uma espécie de “ilha de treinamento” e lá todos os novatos são orientados sobre como proceder na segunda vida. Confesso que não dei muita bola para o instrutor, que falava comigo e mais troçentas pessoas ao mesmo tempo, tão perdidas quanto eu. Aquela confusão de perguntas e gente perdida me enervava, então resolvi me virar sozinha.
É preciso dizer que eu sequer tinha alguma noção de como participar da brincadeira, era realmente como um recém-nascido, que não sabe nada sobre o mundo. Com isso, que as situações constrangedoras foram inevitáveis. A primeira delas foi quando meus pezinhos virtuais reclamaram do cansaço e decidi descansar. Eu também teria um ângulo melhor de quem chegasse e poderia observar com calma o comportamento do povo. Depois do que pareceu uma eternidade vi que não consegui executar um ato simples como sentar. Fiquei horas parada em frente a um banco, sem ter a menor idéia do que fazer e me sentindo uma perfeita idiota. Quando eu já ia desistir, um rapaz simpático me avisou que eu teria que dar alguns cliques para realizar certas ações como sentar e levantar. “Que idiota eu devo ter parecido, meu Deus....”. Esse foi apenas a primeira de muitas e levou dias para eu conseguir com que a pobre Lunnay tivesse certa mobilidade, conseguisse andar, sentar e ir de um lugar a outro sem grandes problemas.
Dias depois, resolvi que era hora de arriscar um vôozinho básico, afinal, todo mundo alardeava que essa era umas das grandes delícias do Second Life. Olhei atentamente para a tecla “voar” que aparecia na tela e fui em frente. Por alguns minutos, eu estava no céu e podia ver todos os meus amiguinhos avatares lá embaixo. Que emocionante, uma deliciosa sensação de liberdade! Quando resolvi descer, porém, descobri que não tinha feito a pergunta mais importante: como fazer para descer?? O resultado foi que me estatelei em cima de uma palmeira e fiquei lá durante um bom tempo, sacudindo braços e pernas de forma ridícula. Nesse momento, preferi sair do SL, tamanha a vergonha.
Quando entrei novamente, dessa vez, mais confiante, resolvi que era hora de fazer alguns contatos. Descobri o repórter de uma revista conhecida e imbuída de toda a minha simpatia, tentei iniciar uma conversa. O fulano, ou melhor, o avatar, porém, não deve ter achado a Lunnay muito atraente ou interessante, porque saiu de perto de mim rapidamente. Saí atrás, mas é claro que ele acabou voando e o máximo que consegui foi bater com a cara na porta de uma loja. Esse, aliás, era outro problema constante. Eu tinha dificuldade com portas, então, constantemente me batia contra uma delas. Passei a ter receio de entrar e muitas vezes perdia um tempão em frente às lojas calculando o espaço da bendita porta e, é claro, tentando não passar vergonha de novo.
O objetivo inicial de tentar conhecer pessoas acabou se revelando uma tarefa não muito fácil. Quando Lunnay nasceu, achei que ela faria parte de um novo mundo, animado, cheia de gente interessante, enfim, que “bombava”. Descobri que a coisa não é bem assim. Boa parte das ruas está sempre vazia e salvo alguns gatos pingados, não há muito com quem conversar. Fiquei me perguntando onde estaria a multidão que a imprensa tanta falava. Desde que foi criado, o números de avatares aumenta expressivamente, é verdade, mas o fato é que eu não tava vendo esse povo todo lá. Talvez estivesse entrando no horário errado, mas ainda assim não imaginei que os habitantes fossem tão escassos.
Bom, teria que arrumar alguma coisa para fazer. Como qualquer alma feminina, achei que fazer compras seria um bom programa, principalmente porque tinha ouvido que havia muita coisa bacana para se consumir naquele maravilhoso mundo. Me dei conta, porém, de que não tinha um mísero linden dóllar no bolso e que comprar qualquer coisa seria meio difícil. Aí bateu a deprê. Pobre na vida real tudo bem, mas no mundo virtual também? Ninguém merece!! Não ter amigos virtuais é triste, mas pior ainda é descobrir que no computador sou mais pobre do que na vida real! Nada de crediário, cartão de crédito, parcela, carnê. O negócio é tudo no cash. Humpf!
Eu tinha que arrumar um jeito de conseguir alguma renda e percebi que o lance seria arrumar um emprego. Mas como? Não tinha qualificação profissional virtual nenhuma e nem sabia como fazer contato, já que as lojas estavam sempre vazias. Quem sabe dançarina de boate? Talvez rendesse uma boa grana. Bom, mas se eu mal conseguia entrar em algum lugar sem brigar com a porta, o que dirá dançar ou rebolar!!! A vantagem era que poderia descobrir um pouco mais sobre o dark side daquele mundo digital. Todo mundo falava em abrir negócio, em ir a festas, em assistir palestras legais, mas eu sabia também que muita gente era atraída pelas coisas, digamos, politicamente incorretas que se pode fazer lá. Há casas de prostituição e o sexo rola sim. Esse, aliás, é um dos mercados que mais cresce por lá. Apesar de não ser o foco da minha matéria, eu TINHA que saber como aquelas pessoas realizavam um ato tão físico. A curiosidade feminina falou mais alto, admito.
Como nascemos seres assexuados no SL, para que se possa dar uma namoradinha qualquer é preciso dispor do órgão sexual, vendido facilmente em lojas especializadas. No entanto, como eu era pobre, fiquei na vontade. Não que eu esteja desesperada na vida real, mas é que como a repórter que sou, fiquei curiosa. A aventura virtual só não foi possível (e eu espero que o meu namorado jamais saiba disso) porque mais uma vez faltou verba. E a minha editora não tinha destinado nenhum realzinho para eu investir na (literalmente) pobre e (certamente) carente Lunnay.
Percebi que eu era um ser meio bizarro ali: pobre, sem rosto e sem sexo. Me senti meio “incompleta”. Mas aproveitei esse momento de reflexão da Lunnay para me perguntar: será que todo mundo que estava ali tinha realmente investido na vida real? Quer dizer, a coisa mais importante que descobri ao viver digitalmente foi que não dá para se divertir e aproveitar realmente a second life sem botar grana de verdade.É simplesmente impossível! Sem isso, o ser humano, ops, o avatar fica vagando a esmo, sem ter muito o que fazer. Esse, aliás, é outro problema. Tudo, absolutamente TUDO o que se queira fazer é preciso dispor de tempo. Para aprender a mexer no programa, para procurar os lugares, as pessoas, para perguntar, para fuçar. Quem quer entrar de cabeça no mundo virtual, tem que dispor de MUITO tempo livre na vida real. E isso, eu realmente não tinha. Além da Lunnay e suas aventuras, eu tinha que organizar a vida da Nani, trabalhar, namorar, fazer pesquisa, ser até dona de casa. E ainda comer, dormir...
O second Life é sim uma idéia interessante, mas digamos que ele ainda precisa melhorar, amadurecer. Talvez daqui a alguns anos, a coisa tenha evoluído e eu tenha mais avatares para interagir comigo e para quem eu possa fazer perguntas simples, como “como eu faço para ir para Paris?”. Sim, porque digitei Paris no search e cai num lugar estranho, que mais me lembrava a ilha do Dr. Moreau.... Desesperada, voltei imediatamente à familiar Berrini e suas lojas vazias. Com o susto, vi que passear virtualmente pelo mundo ainda é complicado para mim. E decidi que vou esperar o Neo (ou algum outro “escolhido”), para me guiar com segurança.
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