terça-feira, agosto 28, 2007

O assassinato do portuga

Outro dia conheci um cara super gente boa. Bonito, simpático, divertido. Resolvemos trocar e-mails, afinal, a tecnologia existe para facilitar a comunicação. Ao receber o primeiro, porém, levei um susto. Era algo mais ou menos assim: “Po a gente precisa ser ver mais to com muita saudade preciso te contar o que aprotarão pra mim foi muito divertido te encontrar semana passada eu sempre gosto do seu papo aliás gosto de tudo em você que é bonita e simpática e inteligente”. Precisei ler o tal e-email umas três vezes, para poder começar a pensar em decifrar aquele emaranhado de palavras desconexas. “O homem sem ponto”, pensei. Horrível! A primeira coisa que me veio à cabeça foi questionar em que momento da vida escolar as aulas de português dele foram substituídas por alguma outra atividade menos “chata” ou “cansativa”. Óbvio que depois disso o fulano perdeu totalmente a graça e eu fugi dele como o diabo foge da cruz, como qualquer mulher com neurônios ativos faria.
Meses depois, fui pautada para escrever uma matéria sobre Second Life (Aliás, outra novela). Precisava saber tudo sobre aquele papo de criar uma eu digital, ter uma segunda vida e bla bla bla....Bom, a primeira coisa que fiz ao nascer digitalmente foi cair numa espécie de maternidade virtual, onde os avatares recém-nascidos recebem as primeiras instruções. Há um instrutor, designado especialmente para orientar essas criaturas perdidas. Ao chegar, perguntei se ali era uma espécie de limbo e a reposta foi “não, aqui é uma ilha de adaptação”. Percebi que o tal instrutor não sabia o que era limbo e resolvi me inteirar mais sobre aquilo com outras pessoas.
Na semana seguinte, continuei a pesquisa para a minha matéria e entrei em diversos blogs especializados no assunto. Um deles, que tinha um layout bem legal e era de um cara conceituado no assunto, me chamou a atenção. A leitura começou agradável até que me deparei com um “agente precisa”....Hã? Agente?? “Só se for secreto”, pensei. Achei que poderia ser um engano, mas estava lá uma, duas, três vezes! Continuei a leitura, mais por curiosidade em achar erros do que aprender sobre tecnologia. Esbarrei com um “derrepente” pouco depois e quase caí da cadeira. O site era bem bacana, bonito, informativo, tinha muita coisa interessante para ler, para aprender, mas ficou claro que a pessoa que o alimentava era péssima para escrever. Outra vez, me questionei sobre a dificuldade das pessoas com gramática e afins. Como alguém consegue escrever um texto tão rico em informações, mas tão pobre em gramática?
Dias depois, outro absurdo. Faço parte de um grupo de jornalismo que recebe informações sobre cursos e palestras, além de oportunidades de trabalho. Recebi um e-mail onde se lia que era “impressindível” que o candidato tivesse essa e aquela qualificação. Minutos depois, novo e-mail, onde a pessoa se desculpava pelo erro (alegando pressa), dessa vez com a palavra correta: imprecindível. Correta na cabecinha dela, claro. Esse grupo, aliás, tem sido um dos que mais tem me deixado boquiaberta. É um verdadeiro festival de emeio, mensionar, fize-se....São jornalistas formados e estudantes! Como pode? Isso é muito preocupante! O que aconteceu com a língua portuguesa? Por que tamanha falta de qualidade nesses novos profissionais? Não só com esses profissionais, mas com a maioria das pessoas?
Essa dúvida começou a corroer meu cérebro. Lembrei que em uma das minhas entrevistas participei de um seminário sobre a jovem cultura tecnológica que está sendo criada. Uma das especialistas dizia que a geração de hoje é diferente, eles não têm o dom da escrita, mas isso não é ruim, já que outras habilidades são desenvolvidas. As crianças e jovens de hoje (e o adultos de amanhã) escrevem e falam pouco, mas são muito mais competitivas e gostam de desafios, dizia ela. Até uma nova linguagem, própria de comunicadores instantâneos, como o MSN, já existe (lembrei do “naum, do vc, pq...”). Enquanto ouvia uma série de explicações sobre essa nova geração, fiquei pensando em como serão esses futuros adultos. Sim, porque eles estão “criando uma nova forma de interação com o mundo da tecnologia, e há pouco espaço para o papel, por exemplo”. Em outras palavras, isso significa que daqui a pouco vai ter gente que nem vai saber o que é um livro! Não saberão quem foi Machado de Assis, Clarice Lispector, Eça de Queirós, Érico Veríssimo, Rubem Braga, Monteiro Lobato, João Cabral de Melo Neto, Fernando Morais!
Ao que tudo indica, elas falarão pouco, mas terão uma linguagem própria, aquela citada há pouco. Serão habilidosas em muitas coisas, principalmente em tecnologia, e o número de blogs e sites será ainda maior. No entanto, nem todos terão realmente qualidade, porque, em algum momento, essas pessoas tão antenadas com o novo perderam o interesse pela língua portuguesa, deixaram de se importar com o fato de escrever bem, de saber se expressar, de conhecer a língua-mãe. È provável que a forma de expressão mais comum seja através dos conteúdos (ruins) produzidos.
Não sou contra a chamada web 2.0, pelo contrário! Acho maravilhoso o fato de ter liberdade para se expressar, mas sinto pesar em perceber que poucos o fazem de forma coesa. Não seria maravilhoso se todo o conteúdo da internet tivesse alta qualidade? Se recebêssemos e-mails bem escritos? Se pudéssemos conversar com as pessoas em uma linguagem clara e sem esse maldito gerundismo? (Aliás, hoje no almoço uma moça perguntou se podia “estar sentando ao meu lado”). O que será de nós, com tanta gente assassinando o bom e velho português??

Um comentário:

Anônimo disse...

gostaria que você estive-se me avisando quando estiver atualizando seu blog, para que eu pude-se estar entrando e estar comentando suas mensagens futuras.
Grata.