quinta-feira, maio 31, 2007

O nascimento da borboleta....


Aos 10 anos, ela queria ser freira. Aos 12, bailarina. Aos 14, os professores do colegial insistiam que deveria tentar o jornalismo. Ela nem ligava. A essa altura queria mesmo era ser atriz. Tinha certeza absoluta de que tinha nascido para a coisa. Era apaixonada por cinema, assistia empolgada aos filmes que passavam na TV, inclusive filmes antigos, prestando atenção em cada detalhe. Era o máximo! A única coisa que prendia sua atenção tanto quanto um bom filme era um bom livro.

Passava horas na biblioteca, olhando todas as prateleiras em busca de algum exemplar que tivesse uma história bem legal. Fazia isso desde os 7 anos. Seu primeiro grande livro foi “A moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo, aos 8 anos, seguindo de“Pollyana” e “Pollyanna Moça”, de Eleanor H. Porter, aos 9. Um clássico, mas ela nem fazia idéia disso. Aos 10 anos já tinha lido a coleção completa de romances da irmã: Bianca, Sabrina e Julia (levou uma bronca da “fêssora” que dizia que ela não tinha idade para ler aquilo). A coleção de livros de bolso de histórias do FBI do irmão também caiu em seus olhinhos vorazes.
Ia na biblioteca sozinha, porque as amiguinhas achavam muito chato aquele negócio de livro e preferiam ficar brincando de dona-de-casa, com suas panelinhas e fogõeszinhos de brinquedo. Ela não gostava. Queria era ler histórias de todo o tipo, saber das coisas!

Na escola, era apaixonada por português e história. Sua paixão pela Grécia nasceu aí. Os professores, naturalmente, insistiam “você gosta de ler e escrever, por que não faz jornalismo?”. Porque tinha descoberto que adorava dançar. E queria estudar dança, ser bailarina clássica ou mesmo de jazz, para dançar divinamente como Jennifer Beals no filme Flashdance.

Aos 14 anos, no intervalo entre um passo e outro de dança (no meio da sala de casa, a contragosto da mãe), ficou encantada com um livro emprestado pelo cunhado, Olga, de Fernando Moraes. Era a história bacana de uma mulher forte, que lutava num país cheio de injustiças. Um Brasil muito complicado, que ela não entendia muito bem, liderado por um cara sacana chamado Getúlio Vargas. Ela não comeu, não bebeu e não parou de ler até chegar ao final do livro, para saber o que aconteceria com a pobre Olga. Levou bronca da mãe, claro e, ao final do livro, estava triste. E com fome.

Continuava apaixonada pelos filmes e seriados da TV. E um dia percebeu que alguns heróis, como Mulher-Maravilha, Super-Homem e Homem-Aranha usavam o disfarce de jornalistas. Que coincidência!! Será que um dia seria uma heroína também??

Pouco depois se deu conta de que ler era seu passatempo preferido. Gostava cada dia mais, nunca se cansava. E à medida que crescia, continuava lendo.... Na adolescência, a coleção Vaga-lume passou por sua mão, começando com Spharion. A marca de uma lágrima, leu aos 15 anos... seguido de uma dezena de outros: A Revolução dos Bichos, Feliz Ano Velho...Apaixonou-se por Sidney Sheldon e Agatha Christie. E por Machado de Assis, Fernando Moraes, Caco Barcelos...Truman Capote virou ídolo. Política virou um assunto interessantíssimo, com Notícias do Planalto. Leu clássicos, romances, livros bobos e inteligentes. Leu até livros esquisitos e toscos, como um livro esotérico que um cara deu a ela no meio da rua (Horrorosooo!!). Perdeu a noção de quantos livros leu ao longo da vida.

Já adulta, o bom desempenho ao escrever cartas, relatórios e textos nos empregos acabou convencendo-a de que tinha certa aptidão. A paixão pelo cinema tinha se transformado em hobby e, aos poucos, foi se inebriando com as possibilidades que o jornalismo oferecia, como as inúmeras histórias que poderia contar, de como seria bom informar as pessoas, fazê-las entender como o mundo funcionava. Estava cada vez mais convicta de aquela era uma função quase social, afinal, falar sobre as mazelas do mundo era realmente um dom.

Aos 28 anos, resolveu encarar os 4 anos de faculdade, cheia de idealismo. No primeiro ano, descobriu que ser jornalista era muito mais complicado do que imaginava. Os professores não paravam de frisar que quem quisesse realmente trabalhar na área, tinha que se preparar para o pior: o jornalismo pagava muito mal, não havia vagas nas empresas e não se conseguia ingressar na carreira sem um QI. Ouviu listas intermináveis de prós e contras da profissão (mais contras do que prós, diga-se de passagem), além de detalhes sórdidos de como os grande veículos manipulam a informação em benefício próprio.

Pensou em desistir inúmeras vezes, em mudar de profissão, em jogar tudo para o alto, tamanha a raiva e frustração. E só não o fez até hoje porque todos os dias acontece um milagre: ela senta em frente ao computador e escreve. Matérias para a revista que trabalha atualmente, e-mails quilométricos para as amigas, textos e crônicas, para o seu blog. E sente um prazer enorme ao fazer isso, que não sente fazendo nenhuma outra coisa. É ali, no meio de tantos pensamentos, que surgem aos borbotões, de frases cuidadosamente elaboradas, da preocupação com a gramática, que ela se sente realizada.

Ainda se sente meio ridícula por manter esse romantismo. Sabe que um dia vai mudar, que vai ficar mais lúcida quanto à realidade da profissão. Bom, até lá, ela prefere curtir esse encantamento e lembrar daquela garotinha que se perdia em meio a tantos livros e que adorava conhecer novas histórias...Porque foi nisso que ela se transformou: numa contadora de histórias.

quarta-feira, maio 16, 2007

Vida de foca


Jornalista recém-formado é carinhosamente apelidado de foca. Também, pudera! As semelhanças não são poucas. Eu, por exemplo, percebi muitas....E as redações estão cheias deles, seres graciosos, alegres, sorridentes e loucos para agradar o grupo, principalmente os animais maiores e mais perigosos, que fazem questão de infernizar a vida das pobres coitadas. E eles são vários!!!!!
As focas do mar, por exemplo, são mamíferos adaptados à vida marinha. As focas das redações também são mamíferos, mas a facilidade de adaptação aos mares gelados do jornalismo impede que a adaptação dessas criaturas seja tranqüila.
Normalmente elas correm o tempo todo pra cima e pra baixo, tentando fazer zilhões de coisas ao mesmo tempo, procurando obedecer as regras impostas pelas morsas, aqueles seres parecidos com as focas (vale ressaltar que só parecem, porque no fundo são muito mais evoluídos e, justamente por isso, viraram aqueles chefes, gordos e bigodudos!).
As foquinhas, portanto, trabalham com todo o esmero, afinal, se prepararam anos para chegar a esse nível, para fazer parte desse seleto grupo de animais admiráveis. E nunca reclamam por fazer tudo o que fazem e receber por isso apenas algumas míseras sardinhas em troca, que mal dá para ajudar a criar a camada de gordura que ajuda a esquentar sua pele.
Quando resolvem sair da redação e mergulhar no jornalismo, descobrem o terror de águas gélidas. Até aí, tudo bem, vale a pena o esforço, já que elas gostam de mergulhar. Matéria aqui, matéria ali, tentativa, erro, tudo seria encarado mais facilmente se as focas não precisassem fugir de criaturas impiedosas que também circulam nessas águas.....Enormes, violentos e sedentos tubarões brancos, que não aceitam a idéia de compartilhar seu espaço com um ser tão inferior como uma foca. E fazem de tudo para que ela fuja dali o mais rápido possível, antes de ser devorada.
Quando são escaladas para mergulhar, geralmente é em algum assunto chato. Nenhum grande profissional/tubarão branco se dispõe a escrever sobre qualquer coisa, só assuntos de suma importância. Geralmente é a pobre foca que vai fazer aquela matéria mais fraquinha ou mesmo perambular pela favela, entrevistar pai-de-santo ou cobrir campeonato de iô-iô. E ainda vai feliz!!!
O pior é quando as focas, que afinal de contas são iniciantes na arte do jornalismo, precisam recorrer a esses tubarões brancos para uma eventual ajuda nesse ou naquele mergulho. “Como faço?”, “Qual seria a melhor pessoa para entrevistar?”, “Essa palavra tem crase?”....
Não fossem as dúvidas a dificuldade natural, é preciso um imenso jogo de cintura para ignorar os olhares de desaprovação das criaturas brancas que, ou resolvem não ajudar e deixam a foca à própria sorte, ou até ajudam, mas deixam claro a insignificância, a ignorância, a falta de discernimento e clareza de raciocínio, além do favor enorrrrrrrrrrrrrrrrrme que estão prestando à jovem foquinha.
Dependendo da região...ops...da redação, a foca pode encontrar outras criaturas marinhas, acostumadas com todo aquele jogo de gato e rato e até se apiedam das focas, ajudando a conquistar umas sardinhas extras em trabalhos esporádicos...Essas criaturas, porém, são cada vez mais raras. Atualmente, boa parte das focas está à mercê de alguma morsa pedante, gorda, bigoduda e chata ou fugindo do rei dos mares. Ou as duas coisas juntas! O que não falta nas redações, aliás, são seres perigosos, verdadeiros reis. E rainhas. E todos os outros animais precisam formar uma corte, estar à sua disposição sempre. A foca? De preferência que fique escondida num canto, sem aparecer muito.
As focas marinhas não possuem orelhas. As das redações têm, mas geralmente precisam fingir que não têm, evitando ouvir o que não pode e ser expulsa do grupo Ou mesmo serem acusadas de intrometidas.
As focas marinhas são excelentes nadadoras, assim como as das redações, e embora ambas consigam realizar belos mergulhos, não têm muita habilidade em terra firme, virando presa fácil para caçadores, ursos polares e morsas (pois é, elas de novo....).
Em 2002, durante a época de caça oficial de focas marinhas no Canadá, foram assassinadas mais de 300.000 espécimes. Aqui no Brasil, um número semelhante de focas-jornalistas tenta ingressar no mercado frio e cruel das redações, mas também deve morrer no meio do caminho.O único momento feliz da foca é durante o acasalamento. Tanto as focas marinhas quanto jornalistas se reproduzem em colônias. No caso das jornalistas, essas colônias geralmente são animados bares onde elas podem se misturar a outros de sua espécie, ou outras igualmente injustiçadas (como estagiotárias e secretinas), mas que tem uma vontade enorme de viver. Ou melhor, sobreviver. E nada como uma boa breja e um petisco para ajudar!!