O jornalismo continua me impressionando. É uma profissão deliciosa, que pode te levar a momentos de pura realização e sensação de dever cumprido. Em contrapartida, é uma profissão que facilmente te desvirtua e não é raro perceber alguém perdendo noção da realidade e se esquecendo da ética, do profissionalismo e do verdadeiro significado da profissão. Depois da expressão “quarto poder”, muitos jornalistas deixaram de ser meros mortais e tornaram deuses.
Esta semana passei por uma situação que me evidenciou isso: demiti uma repórter. Era para ser uma coisa simples, já que ela ainda estava em experiência. Não tinha o perfil da empresa e também não sabia se queria continuar aqui – disse isso inúmeras vezes, sem cerimônia e em ocasiões diferentes.
A reação dela, porém, me deixou surpresa. Saiu revoltadíssima, garantindo que diria a todos que eu a tinha demitido. ???. Uma ameaça, mas na hora nem percebi. Algumas ligações depois, saiu batendo o pé, com nariz empinado e, com um ar de puro deboche, disparou: “Estou indo para a revista X”. “Ótimo”, pensei. Vá com Deus e a pomba do divino, como diz minha sábia mãe.
Mais tarde, avaliando a situação, me perguntei o porquê de tudo aquilo. Que tipo de pessoa age assim? Alguém que trabalhou em Brasília. Alguém que tem um namorado também jornalista e, dizem, mega conceituado. Que trabalhou em ministério e jornal de grande circulação. E daí? Nada justifica os absurdos ditos, a ameaça, o tom de desdém em relação à empresa que estava deixando. Até agora não sei se foi a demissão em si, a minha justificativa ou o fato de termos discutido um pouco antes, por causa de algumas alterações que ela se recusou a fazer em uma matéria. Qualquer que seja o motivo, mostra que ela se julgava boa demais para trabalhar comigo ou com a equipe. Aliás, ao que parece era boa demais também para atuar no ministério ou no jornal (uma amiga em comum disse que ela saiu rápido de ambos os lugares e brigando com as respectivas chefias).
Uma pena. Era competente, apurava bem e tinha um bom texto. Mas pelo jeito, se julgava acima da profissão. Acho que ela tinha chegado ao perigoso estágio de se imaginar integrante do olimpo da comunicação, sendo um daqueles seres iluminados, que pode fazer ou dizer o que quer sem sofrer nenhuma conseqüência. Um erro comum, já que jornalistas são pessoas comuns e um veículo de comunicação é uma empresa como outra qualquer.
Talvez ela tenha se inspirado em Mercúrio, deus dos escritores, intelectuais e jornalistas, e que representa a inteligência e a comunicação. Só que Mercúrio também proteje aos ladrões e é considerado o mais trapaceiro dos deuses, justamente pelo poder da comunicação. Talvez ela devesse se espelhar mais em São Francisco de Sales, o padroeiro dos jornalistas. Ou mesmo em Santa Clara, que protege contra a falta de comunicação...




















