sábado, julho 23, 2011

Enfim, o descanso

No começo da tarde, estava me preparando para ir ao shopping, quando me bateu uma vontade irresistível de ouvir Amy Winehouse. Ouvi enquanto acabava de me trocar e só mais tarde, quando encontrei um amigo, ele me deu a notícia.
Ainda não sei de nada, como foi, a causa, quem encontrou o corpo. Ele só me disse que tinha ouvido sobre a morte, mas que ainda não sabia os detalhes. E é sem saber de nada e com muito pesar que escrevo este post.
Sempre achei a história dela muito trágica. Lembro que uma vez, numa das minhas incursões pela internet madrugada adentro, fiz uma pesquisa completa sobre ela. O começo, o primeiro CD, as músicas, a paixão pelo marido, a decadência. Mergulhei fundo na história, li matérias, artigos, blogs, vi vídeos, entrevistas, shows, apresentações e, claro, zilhões de fotos. Quando mais me aprofundava, mais chocada eu ficava.
É fácil traçar um histórico a partir das primeiras aparições, quando ela ainda tinha uma carinha saudável, cantava divinamente e tinha até um quê sexy. Ainda não tinha o visual anos 60, mas a voz era a espetacular de sempre. Era uma menina sendo descoberta pelo mundo, naquela época, embora a imagem que a maioria guarde dela seja outra. Uma Amy de uma magreza cadavérica, dentes faltando, em muitas fotos bêbada, com pó no nariz, ar distante, bituca de cigarro entre os dedos, unhas sujas, descalça, correndo alucinada pelas ruas. Lembrava em muito os drogados da Praça da Sé ou do Centro Velho de São Paulo. Algumas fotos dela realmente chocam, especialmente quando comparadas às daquela moça de olhar atrevido e visual quase comportado do primeiro álbum, Frank.
Já no fundo do poço, numa tentativa inútil de melhorar a aparência, colocou silicone e a mim ficou mais estranha ainda: esquelética e com aqueles peitos artificiais que destoavam do resto. Ao menos mostrava que ainda existia o resquício de uma Amy vaidosa, apesar de tudo.
Ela tinha apena 27 anos, mas parece ter vivido um milhão, tamanha a quantidade de altos e baixos de sua curta carreira. Era uma mulher intensa, passional, mas extremamente frágil. Em pouco tempo deixou de ser a cantora brilhante para ser a “cantora-problema”, a bad girl, ou simplesmente a maior drogada do showbizz. Cruel, a imprensa a transformou numa caricatura, quase uma piada. Cada movimento seu era vigiado de perto e se sua performance nos palcos não era a mesma, os arroubos na porta de casa, as brigas, bebedeiras e escândalos em pubs, bares e hotéis sempre rendiam assunto para os jornalistas e urubus de plantão. À medida que definhava na frente de todos, o mundo parecia apenas aguardar o dia de sua morte. Até um bolão especulando a data foi criado. Parecia que ninguém acreditava numa recuperação.
Quando ela veio ao Brasil, mais gordinha e animada, achei que as coisas estavam tomando o rumo certo, que ela estava, enfim, se recuperando. Porque no final, foi isso que ela sempre foi: uma pessoa doente. Primeiro dependente daquele marido filho da puta, Blake Fielder-Civil, a primeira droga da vida dela. Depois, das drogas propriamente ditas, justamente apresentadas por ele. Sempre imagino como teria sido a vida ela se não o tivesse conhecido. Talvez anos de carreira, muitos CDs, shows perfeitos. E nós sendo apresentados com uma voz não inconfundível.
Ouvir Amy é sempre viajar, entrar em outra dimensão. Infelizmente, o sonho acabou. Durma bem, Wino.