quinta-feira, março 15, 2012

As 127 horas de Aron Ralston

Não costumo escrever sobre filmes (embora o cinema seja minha paixão), mas vou ter que dedicar um post ao filme 127 horas. Eu já tinha ficado curiosa quando assisti ao Oscar no ano passado e vi que o filme teve seis indicações, inclusive melhor filme e melhor ator, para James Franco – que aliás, está impecável em sua atuação. O filme conta a história verídica de Aron Ralston, estudante aventureiro experiente em cânions. Numa dessas incursões, em maio de 2003, ele decide ir até o Blue John Canyon, no estado americano de Utah. Deixa a caminhonete no estacionamento do parque e pedala por cerca de 20 quilômetros, até chegar à entrada de uma das gargantas do cânion. A idéia era simples: descer a garganta de rapel, já que ela terminava não muito longe de onde ficara o carro e com ele voltar para pegar a bicicleta. Nada complicado, para quem já havia escalado mais de 49 montanhas. Entretanto, durante uma descida, ele cai num buraco e um enorme bloco de pedra desliza, prensando seu braço contra a parede da garganta. Incapaz de removê-lo, ele passa cinco dias e sete horas (127 horas) tendo que se proteger do frio e do calor, com pouquíssima água e comida, (e sofrendo de alucinações por conta disso e da dor), até decidir amputar o próprio braço. Sim, contei o final do filme, mas para quem não assistiu isso não atrapalha a narrativa. Claro que a cena da amputação é chocante e o diretor Danny Boyle garantiu alguns estômagos revirados mundo afora. O mais importante, porém, é a personalidade de Aron e a forma como ele encara o próprio drama. O cara passa cinco dias preso no fundo de um cânion, sem chances de ser encontrado (não tinha avisado ninguém onde estaria, por exemplo) e não perde o foco, nem se deixa abater, mesmo tendo a morte quase como certa. Aproveitando que dispunha de uma filmadora, ele faz alguns vídeos narrando sua situação e até se despedindo da família, além de muitas fotos, inclusive do braço amputado. Chega a fazer graça, em alguns momentos. E experiente, tenta absolutamente de tudo para tentar sair dali, inclusive usando um sistema de polias. A decisão drástica de amputar o braço foi a última tentativa e ele o fez com uma determinação assustadora: usando um canivete com lâmina cega, primeiro quebrou os ossos e só depois foi cortando aos poucos pele, músculos e tendões. Alguém consegue imaginar isso?? É de um sangue frio inimagináveis. Claro que é difícil prever como agiremos em situações extremas, onde nossa sobrevivência está ameaçada, mas a personalidade e a desenvoltura com Aron lida com a situação são impressionantes. Em nenhum momento ele se desespera ou perde a concentração. A meta dele é sobreviver e sair dali. E consegue: depois de amputar o braço, ainda desceu de um penhasco de 18 metros e percorreu quilômetros até ser encontrado e socorrido por um grupo de pessoas. A essa altura, estava a penas 2 quilômetros de onde se encontrava sua caminhonete. E tudo isso foi narrado com maestria pelo diretor, que conseguiu um filme eletrizante com apenas um personagem. Além da atuação de Franco, tem a fotografia belíssima e os takes de delírio do personagem, que garantem a agilidade e se contrapõem aos momentos de tensão (e solidão) de Aron. Hoje Aron ganha a vida dando palestras motivacionais, nas quais relata sua história de superação e escreveu um livro biográfico, “Between a Rock and a Hard Place”. Engana-se quem imaginava que o episódio o impediria de continuar escalando. No braço amputado, ele instala próteses que variam conforme as necessidades das escaladas. A grande diferença é que agora sempre avisa onde está indo. Uma história incrível, não?

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